Novos Companheiros, Velhos Amigos

A Escola Dominical de Petrópolis crescia. O Doutor, sentindo as possibilidades da extensão do trabalho, começou a escrever cartas a seus amigos e antigos companheiros de Illinois, convidando-os a virem auxiliá-lo no Brasil.

O primeiro a atender a esse apelo foi o Sr. William Pitt, inglês, natural do condado de Devonshire, que havia sido aluno de D. Sarah quando esta, ainda solteira, lecionava em Torquay. Mudando-se para os Estados Unidos, ali trabalhava como carpinteiro. Chegou ao Rio em dezembro de 1855 e, poucos dias depois, a Petrópolis, onde, com grande emoção, se encontrou com sua antiga mestra. Restabelecendo-se das febres ali contraídas, voltou ao Rio, conseguindo emprego na carpintaria do Arsenal da Marinha.

Em 6 de agosto do ano seguinte chegaram três famílias madeirenses: Francisco da Gama, com sua mulher, Francisca, e três filhos; Francisco de Souza Jardim, com Albina, sua esposa e três filhos; e Manoel Fernandes, com sua esposa, Francisca, e uma prima, Maria Fernandes. Haviam saído de Springfield em 27 de maio para Baltimores, onde se demoraram uma semana e, depois de dois meses de estafante viagem, passando por Southampton, na Inglaterra, chegaram ao Rio a bordo de um navio cargueiro, do qual foram os únicos a desembarcar. Pitt já os esperava no cais. Auxiliado por ele, Francisco da Gama conseguiu encontrar uma casa na rua Boa Vista, hoje Conselheiro Zacarias, no morro de Saúde, que foi alugada para ali ficarem residindo as três famílias. Pitt residia numa rua paralela, a rua do Propósito.

Pouco depois, o Dr. Kalley veio visitar os recém-chegados ao Rio, com eles celebrando, talvez num domingo, 10 de agosto, a cerimônia da Ceia do Senhor. Entre os participantes, além do Doutor e dos sete madeirenses adultos e de William Pitt, estava o Sr. William Richard Esher, com o qual Pitt havia travado conhecimento e amizade no Arsenal.

Manoel Fernandes e Francisco da Gama, aquele em Petrópolis, residindo próximo à casa do Doutor, e este no Rio, dedicaram-se aos serviços de colportagem de Bíblias, Novos Testamentos e tratados religiosos fornecidos pelo Dr. Kalley. De outro lado, Pitt e Jardim, este empregando-se também no Arsenal como limador, os acompanhavam num constante ministério de evangelismo pessoal, conversando com uns e com outros e convidando-os a assistirem aos estudos bíblicos e cultos que se realizavam à noite na casa da rua Boa Vista.

Não era grande o grupo nem também de gente letrada: operários, como Pitt, pequenos negociantes, como o Gama, lavradores, como Jardim e Fernandes. Mas que admirável era essa pequena companhia! Os seis madeirenses traziam ainda no corpo as marcas das perseguições que haviam sofrido em sua ilha natal. Francisco da Gama era filho daquele a que podemos chamar o primeiro mártir da Madeira: Antônio Francisco da Gama, um dos primeiros convertidos do Dr. KaIIey e cujo cadáver não foi permitido ser enterrado no cemitério público de Funchal, por ser herege, apesar de todos os esforços e empenho dos ingleses e escoceses evangélicos, e acabou por ser sepultado no lugar onde dois caminhos se cruzam e, por isso, chamado de Encruzilhada, "para servir de exemplo para todos", disseram as autoridades. Ele havia sido o primeiro a abrir a sua casa, no Trapiche, para as reuniões de oração e estudos bíblicos dirigidos pelo Doutor. Francisco, certa vez, em 1844, foi de tal modo espancado que o deixaram como morto, numa rua, durante toda a noite, na freguesia da Ribeira Grande. No ano seguinte, estando a dirigir um culto na casa de seu falecido pai, oficiais de justiça e alguns soldados invadiram a casa, arrombando-a, e o levaram, assim como sua mãe, sua irmã, seu irmão Antônio e mais quatro crentes, para a prisão. As mulheres logo foram soltas, mas os homens, condenados a dez meses de encarceramento, só foram libertados em fevereiro de 1847, quinze meses depois de condenados. Em agosto do mesmo ano, depois de Antônio, sua irmã e a esposa de Antônio haverem deixado a ilha, fugindo para a Trindade em agosto de 45 e de, em abril de 47, seu irmão João Dagama, futuro autor do livro Perseguições aos Calvinistas na Madeira, haver tomado o mesmo rumo, Francisco também pôde escapar para a mesma ilha, reunindo-se às numerosas famílias madeirenses que ali haviam buscado refúgio.

Francisco de Souza Jardim, lembrado por Dagama como um dos que, a seu lado, auxiliaram o Dr. Kalley em sua fuga, protegendo-lhe a rede em que ia disfarçado como uma senhora enferma por entre uma multidão ululante e sanguissedenta em busca do Doutor, foi um dos últimos a deixar a ilha, vindo diretamente para Illinois em 1854. Participou, sem dúvida, do grupo de emigrados a quem o Doutor e seus amigos da Inglaterra ajudaram a sair da Madeira, enquanto visitava seus antigos companheiros na América.

Depois de tantas tribulações na terra natal, vendo suas casas queimadas, obrigados a se refugiarem seminus nas montanhas e nas cavernas, sofrendo as duras experiências do exílio e dos rudes trabalhos na Trindade - quando estavam, agora, bem acolhidos e ajudados pelos irmãos americanos, começando a reconstruir suas vidas e poderiam, com toda a tranqüilidade, entregar-se aos trabalhos nas igrejas de Springfield, eis que chegam as cartas do Dr. Kalley, em 56, convidando-os para recomeçar tudo em terra estranha e a sofrer talvez novas perseguições e desamparos. Que fizeram eles? Como responde­ram ao convite? Diga-o a carta que, em 12 de abril de 56, Francisco da Gama escreveu ao Doutor, pedindo-lhe apenas que esperasse pelo tempo de ele vender o quanto possuia e então poder partir ao seu encontro:

"Cá recebemos a noticia de me chamar para aí, e eu fiquei contente em ouvir a sua voz e de me chamar a um trabalho tão precioso. Pois eu sempre desejei ocupar-me do trabalho do meu Salvador".

Francisco Jardim, que relatara de modo tão vivido a chegada dos refugiados madeirenses à América do Norte dois anos antes, narra como ele e sua família receberam a carta do Dr. Kalley:

"Quando o Gama recebeu a carta do Doutor, eu já havia comprado um terreno e feito uma casinha de madeira onde morava com a minha família. A carta convidava três famílias a virem ao Brasil e, se acaso nenhuma delas quisesse aceitar a proposta, pedia que a carta fosse destruida. Minha mulher apresentou dificuldades: a presença dos filhinhos, a mudar outra vez de terra, a longa viagem, o país estranho, as incertezas. Mas eu vi que o Senhor me apontava o caminho. Disse a ela que, se não fôssemos, perderia a alegria desta vida. Juntos oramos ao Senhor para nos fazer claro qual era a sua vontade. Em breve concordamos em aceitar a chamada. Arranjamos nossos negócios e aprontamo-nos para a jornada”.

William Pitt não passara pelas aflições dos madeirenses. Mas a lembrança e a saudade de D. Sarah, sua antiga mestra, foi como o manto de Elias pousado sobre ele a ler a convocação do Doutor. Não era madeirense, mas voluntariamente apresentou-se, por amor. Gedeão teve trezentos. Davi teve seus sobrinhos e seus quarenta capitães e todos quantos a ele acorreram em Adulam. Kalley teve esses quatro, com suas esposas, a eles iguais na dedicação e no heroismo de tudo deixarem para atender à vocação que receberam. Honra seja a eles, e exemplo que fique às igrejas que nasceram do sulco em que a semente da boa Palavra que semearam ficou umedecido por seu sangue, suor e lágrimas e brotou fortalecida pelo sacrifício a que se deram, generosamente, a favor de um povo de terra estranha.



(Texto extraído do livro I A epopéia da Ilha da Madeira de autoria do Rev. Manuel Porto Filho pag. 118 a 120)

Volta a página inicial