Infância e Juventude (1809 a 1838)

Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. (Isaías 53:5)

Robert Reid Kalley era escocês, natural de Mount Florida, nos arredores de Glasgow, condato de Lamark, onde nasceu no dia 08 de setembro de 1809. Seus pais foram Robert Kalley, abastado negociante na cidade, e Jane Reid Kalley, que pertenciam à Igreja Presbiteriana da Escócia e o fizeram batizar aos 38 dias de idade, na igreja local(3).

Era o segundo casamento do pai, cuja primeira esposa viveu pouco tempo a seu lado, deixando uma filhinha, de nome Jessie Macredie Kalley, nascida em fevereiro de 1805. Da união de Robert e Jane vieram dois filhos: Jane Dow Kalley, nascida em 24 de abril de 1808, e Roberto, no ano seguinte(2).

Não contava ainda o menino um anos de idade quando lhe morreu o pai, anos mais tarde, Jane, que ficara com as três crianças, contraiu novas núpcias com o Sr. Davi Kay, viúvo também e também negociante em Glasgow, pai de quatro filhos: Mary Kay, nascida em 12 de outubro de 1796, que ajudou a criar os sois menores, Jane e Roberto; James Kay, que emigrou para os Estados Unidos; AnnKay, de quem não se tem notícias, e Macredie Kay, que, com sua irmã Mary, mais tarde prestou valiosos serviços a seu irmão de criação quando missionava na Madeira(3).

Davi Kay era da mesma igreja de Jane e a nova família, com seis crianças, pois Jessie parece ter ido residir com os avós maternos, viveu em perfeita harmonia. Tanto Davi como Jane consideravam os enteados como verdadeiros filhos(4).

A respeito do padrasto, o Dr. Kalley escreveu muitos anos depois:

" Durante minha infância e mocidade, fiquei debaixo da tutela de um homem de valor, com quem minha mãe se casou depois da morte de meu pai. Mesmo depois da morte dela, quando eu era ainda uma criança, ele foi para mim um verdadeiro pai. Ainda que eu desse muito trabalho e lhe fosse causa de muitas preocupações e tristezas, ele perseverou comigo, dando-me educação moral e religiosa por seus exemplos e preceitos, com muita oração a Deus"(5)

ainda depois de seu regresso definitivo do Brasil, escrevendo em 1880 a seu sobrinho, o Dr. Robert Kalley Miller, filho de Jane, lembrava-se da grande dívida de gratidão que unia à memória do padastro e de sua filha, Mary Kay, pela bondade e pelo carinho com que o trataram, orfão de pai e, depois, da mãe(6).

Pouco se sabe a respeito da meninice de Kalley, a não ser o episódio de, aos oito ou nove anos, tomando banho no rio Clyde com outros companheiros , haver-se deixado arrastar pela correnteza e quase haver morrido afogado, não fora o providencial socorro de alguém que, vendo-o em tais apuros, se atirou à água e o salvou de morte quase certa(7).

Depois do curso primário e preparatório na Rennie School e no liceu ou ginásio de Glasgow Grammar School, onde o latim e a oratória se tornaram as disciplinas de sua predileção, matriculou-se em 1825 na Faculdade de Medicina e Cirurgia, tendo apenas dezesseis anos. Tanto o padastro como o avô materno preferiam vê-lo preparar-se para o ministério da Igreja, mas Roberto, já imbuído de idéias materialistas e ateístas, tomou rumo diferente(8).

Sendo ateu - escreveu ele ao Sr. Wilby em 15 de novembro de 1843, explicando a razão por que havia contrariado os desejos de David e do avô e escolhido como carreira a medicina e não o ministério eclesiástico - sendo ateu, ao escolher a carreira, não me vi com coragem de pregar e ensinar aquilo que eu considerava ser uma porção de mentiras. Abandonei, pois, toda idéia de estudar teologia, e escolhi a medicina(9).

Em outra ocasião, o Dr. Kalley expôs seus sentimentos naquela época da seguinte maneira:

Um coração mau e más companhias varreram tudo. As especulações da Filosofia e da Ciência (falsamente chamada) contrariavam todos os esforços de meu padrasto e cegaram o meu entendimento de tal maneira que não me era mais possível crer na existência de Deus. Parecia-me uma coisa nobre ser libertado da superstição e do fanatismo que a crença impunha à alma humana. Aqueles que faziam profissão de religião, eu considerava imbecis, ou, então embusteiros, e desprezava-os a todos. quando moço ainda, estudava várias ciências, admirava as maravilhas dos seres microscópicos, meditava na distância, na magnitude e na velocidade dos orbes. Vendo tudo isso, eu me achava impossibilitado de abraçar a idéia de um Deus, um Ser Supremo. Por muitos anos não cri em sua existência. Parecia-me impossível crer na real existência de um Ser, dotado de vida eterna, cuja ciência compreende tudo no universo e cujo poder impele os astros e, ao mesmo tempo, forma os delicadíssimos membros de um animalículo microscópico(10).

Havia, na verdade, outro motivo agindo secretamente, mas com grande efeito em seu coração e a respeito do qual ele, mais tarde, confessa:

A minha aversão e repugnância às leis do Criador sugeriram-me o desejo ardente - que não haja Deus - tudo isso para que eu desse lugar ao pecado sem temer as conseqüências e penalidades(11).

assim, com tais disposições mentais e espirituais, entrou na carreira escolhida, continuando por muito tempo em seu cetiscismo e em sua oposição declarada contra as Sagradas Escrituras e todas as doutrinas cristãs.

Em 1º de setembro de 1827, depois de um curso brilhante, recebeu atestado de trabalhos práticos no Hospital Real de Glasgow, onde se internara no curso de Farmácia. Em 03 de agosto de 1829, completando o currículo, diplomou-se em Farmácia e Cirurgia. Tendo obtido licença de cirurgião, fez sua primeira grande viagem marítima, como médico de bordo, no navio a vela Upton Castle, que se dirigia a Bombaim, na ìndia. Numa segunda viagem, o navio atracou em Funchal, capital da ilha da Madeira, para onde estavam consignadas algumas cargas. O jovem médico teve oportunidade de visitar a cidade e a ilha, que o impressionaram profundamente tanto pelas belezas naturais como pela situação de pobreza e de ignorância do povo. Isso veio a casar-se com as impressões trazidas diante da miséria e do fanatismo religioso observados em Bombaim e nas cidades costeiras do Oriente por onde passara e contribuiu para aprofundar o grau de agnosticismo a que se deixara levar.

Minha primeira visita à Madeira - escreveu mais tarde - foi em 1831. Pouco antes havia ocorrido em Portugal uma guerra civil, que repercutiu na ilha, onde houve casos de assassinatos, envenenamentos etc. Alguém me mostrou os estragos em certos prédios, ocasionados por balas de canhão. Houve coisas ali que me agradaram à vista e ao paladar. Foi no tempo da colheita das uvas. Lembro-me de passear pelas vinhas no sopé das montanhas. Passei pela Catedral e pela cadeia pública. Se alguém me houvesse dito que doze anos mais tarde eu estaria ali preso pelo crime de ler e explicar as Escrituras, eu teria respondido que isso seria inteiramente impossível. Porém Deus conseguiu essa transformação, tirando-me da incredulidade(12).

Convidado a uma terceira viagem pela mesma Companhia, em 1832, lamentou não poder aceitar o convite, pois estava prestes a abrir consultório em Kilmarnock. Pouco depois chegava a notícia de que o navio em que deveria embarcar se incendiara próximo ao cabo da Boa Esperança, no extremo sul do continente africano, e, no naufrágio, haviam perecido todos os passageiros e tripulantes. Essa notícia lhe deve ter causado profunda impressão, mas não foi bastante para libertá-lo da irreligiosidade e do ateísmo que, então, o dominavam(13).

Em 1832 abriu o consultório em Kilmarnock. Hábil cirurgião, prosperou em seu trabalho atendendo a numerosas famílias da alta sociedade local, que formavam a sua clientela. Cheio de vida e muito espirituoso, temperamento herdado do pai, "cavalheiro de semblante alegre e de natureza extrovertida", amante dos esportes, tornou-se benquisto nas altas rodas sociais e sua presença era sempre requisitada nas festas sociais e familiares. Ganhou o apelido de "o médico dançador de Kilmarnock". Essas diversões e atividades não prejudicavam, porém, seus trabalhos profissionais, pois amava a medicina, e a cirurgia em particular, assim como os exercícios da clínica junto à gente mais pobre, a quem socorria às mais das vezes gratuitamente. Por dois anos tudo lhe corria a gosto e com êxito, quando começou a sentir que nem os prazeres deste mundo nem as vitórias obtidas em sua profissão poderiam satisfazer plenamente aos anseios mais íntimos de sua alma(14).

Em 1833, o Dr. Kalley, então com 24 anos, veio a conhecer a jovem Margarida Crawford, de Paisley, que exerceria grande influência sobre sua vida, fervorosa cristã que era. Sem dúvida, a amizade entre ambos, que logo evoluiu para sentimentos mais íntimos e pessoais, muito ajudou ao jovem médico que debatia em floresta de dúvidas, procurando às apalpadelas um sentido mais real para a existência(15).

Mary Kay, a irmã querida e sua confidente, também muito o auxiliou. Em carta da época, respondendo à que ele lhe dirigira sobre o assunto, aconselhava-o:

Querido Roberto:

Muito agradecida pela carta que me escreveste e, mais ainda pela franqueza com que me falaste. Ao mesmo tempo, estou bem triste pelo que me dizes a respeito do estado de tua alma. Sinto-me incapaz de poder satisfazer as tuas dúvidas... Se a tua alma se submetesse à autoridade das Escrituras, cessariam as tuas dúvidas todas... Cessariam também todas as tuas vãs especulações acerca de assuntos que sempre ficarão inescrutáveis aos mortais, por mais sábios que sejam.

Rejeitar uma doutrina por esta ser misterioso e além da tua compreensão é o cúmulo da insensatez e demonstra uma mente cheia de preconceitos e fechada para a verdade.

Não é misteriosa a nossa própria existência? Não são misteriosas as operações da natureza? Nada sei a respeito dos motivos por que Deus permitiu a entrada do pecado no mundo, ou por que não criou o homem infalível. O teólogo mais profundo não pode dizer mais que isto: Que assim lhe aprouve para a sua glória...(16)

.

Roberto conhecia a irmã e o grande equilíbrio e sensatez que, sempre, desde criança, encontra em todas as sua palavras e conselhos. E essas palavras assim como as que diretamente ouvia quando a procurava para outras confidências pessoais, não podiam ficar sem efeito sobre ele. Em 35, uma completa mudança espiritual alterou-lhe o curso de toda a vida.

Tinha sido chamado para atender a uma pobre e piedosa velhinha, presa de cruel e incurável enfermidade. Examinando-a, o Doutor ficou impressionado com o espírito de paciência e conforto íntimo com que a enferma suportava os sofrimentos e provações, e a tranqüilidade com que via a morte aproximar-se inexoravelmente. Terminada a visita e prestes a retirar-se, a doente pediu-lhe o favor de abrir o armário que ficava ao pé do leito e entregar-lhe o pão ali guardado e que lhe seria a refeição naquela hora. Ele o fez: encontrou um pedaço de pão seco, que depositou na mão da enferma. Esta, ai receber a migalha tão pobre, fechou os olhos, depois de um breve agradecimento ao Doutor, e deu graças a Deus pela comida. O médico sentiu um profundo abalo emocional: Como podia aquela anciã agradecer a Deus - ao seu Deus - por comida tão escassa e tão seca? Como podia ser tão tranqüila em tais desconfortos, tão serena e confiante em tantos sofrimentos? Procurou saber o motivo dessa atitude, não observada ainda entre os muitos enfermos de que até então cuidara, e ela, respondendo-lhe, declarou, com toda a candura, que toda aquela paciência, resignação e conforto vinha do fato de ser crente em Jesus e de sua leitura piedosa e diária das Santas Escrituras(17).

O Doutor resolveu, então revisar mais diretamente sua posição de incredulidade e examinar com maior interesse as Escrituras cristãs, cuja leitura e meditação alimentavam de modo tão admirável a tranqüilidade espiritual de sua cliente. Conversou com outro jovem, que sentia os mesmos problemas que ele e resolveram procurar os conselhos de um velho ancião da igreja. Este se dispôs alegremente a ajudá-los e dentro em pouco, com outros jovens que a eles se juntaram, formava-se uma pequena classe de cartoze alunos nas dependências do templo para leitura da Bíblia, orações e meditações(18).

A atenção de Kalley foi chamada para o livro de Deuteronômio e, neste, para as profecias que o Senhor dirige ao povo hebreu, prometendo guardá-lo nas tribulações que adviriam depois, principalmente no cativeiro a que futuramente seria levado. Grande observador da História, impressionou-o, nessa leitura, o significado bíblico da existência e das tribulações do povo judeu através dos tempos e concluiu que muitas das profecias que encontrara no livro Já haviam tido cabal cumprimento e outras havia que, certamente, aguardavam ainda a consumação(19).

Essas circunstâncias históricas minaram e acabaram por destruir o seu ateísmo. Deus era real, não apenas como realidade subjetiva na experiência de cada crente, mas real e poderoso, supremamente operante nos fatos da história do mundo e da natureza que criara. em seu diário, descrevendo as circunstâncias que o haviam levado a libertar-se "das superstições, do fanatismo e da ignorância crass" representados pela "doutrina de qualquer divindade", diz haver na sua mocidade aplicado sua inteligência ao estudo de diversas ciências, investigando com o auxílio do microscópio e do telescópio, algumas das maravilhas da Natureza, decidindo, por esses estudos e pesquisas, " que era impossível a um único Ser existir eternamente e tomar conhecimento de cada objeto na terra". Agora, a vida e a experiência pessoal daquela velhinha e os significados nacionais da vida de todo um povo através dos séculos encontram, para ele uma explicação que se impões: existe, sim, este Ser, que além de toda a capacidade de pesquisa através de microscópios e telescópios e além de toda compreensão lógica e científica da mente humana, governa a vida e os fatos da vida do homem individual e das nações. As profecias bíblicas dão provas disso.

Quando senti, satisfeito - falou ele mais tarde, em 21 de agosto de 1845, perante a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Livre da Escócia - quando senti, satisfeito que há um Deus, que este Livro (apontando para a Bíblia) é de Deus, então senti também que cada cristão é chamado a entrar naquele campo de atividade em que melhor possa usar para Deus todos os talentos que ele lhe deu. E, quanto a mim, tenho pensado de que maneira, como médico cristão, posso melhor servir ao Filho de Deus.

Renunciando, pois, ao ateísmo e confessando a Cristo como seu Salvador e Senhor, reconciliou-se com a Igreja e foi admitido a comunhão. Nas visitas médicas e nas consultas em que recebia os clientes, não somente procurava, daí por diante, tratar do corpo e das enfermidades físicas, mas conversar também sobre as necessidades da alma, usando as Escrituras para leitura e meditação. A classe de moços, agora aumentada, passou a reunir-se à noite na Igreja, após o culto divino. Uma outra classe, de adultos, foi iniciada em sua residência e também uma outra, para os clientes mais pobres, que se reunia às quintas-feiras, numa das dependências do templo. Tinha, então 26 anos. A conversão, o estudo meticuloso das Escrituras e a dedicação de seu futuro a Deus deram-lhe o sentido, que há tanto tempo procurara, das razões e do propósito de sua vida. Robert Reid Kalley encontrara, por fim o seu Senhor(20).

Seus pensamentos voltaram-se para o vasto campo missionário. Da Grã-Bretanha, da Escócia, da América, da Morávia e de muitos países pioneiros haviam saído para levar o evangelho ao Oriente e a África, às distantes ilhas da Polinésia, nos mares do Sul. Kalley contemplou a grande necessidade da China, com uma população enorme sem o conhecimento de Cristo. Acompanhava, com vivo interesse, os relatórios dos trabalhos evangelísticos e de assistência médica dos missionários naquele país. Leu em uma revista da Sociedade Missionária de Londres um apelo aos médicos cristãos para dedicarem sua vida e seus talentos ao serviço da humanidade sofredora do oriente, pois era a porta principal por onde a Palavra de Deus poderia alcançar, de modo objetivo, aquelas populações. Entendeu que esse apelo vinha diretamente a ele, de Deus naquelas circunstâncias. Comunicou a Miss Kay os seus propósitos e ela lhe escreveu, em carta de 18 de julho de 1835:

Querido Roberto:

Estou muito alegre por saber que estás tão preocupado na instrução da juventude... O teu contacto com esses casos (as pessoas que buscavam a salvação) será um meio de encorajamento a ti mesmo servirá para firmar-te bem na doutrina da Graça divina.

Quanto à tua idéia de estudar para o ministério, não digo nada contra, pois conheço os teus motivos desinteressados e creio que aquele que é a grande Cabeça da Igreja pode perfeitamente conceder-te os dons necessários e abrir-te a porta, se tiver trabalho dessa natureza para ti.

Falas de ser missionário. Não há dúvida que há muito trabalho nesse campo, especialmente nos bairros pobres. Sem dúvida o salário é pequeno, ou nenhum. Mas visto te haveres dedicado com tudo o que tens no serviço de Cristo, nada do que gastares - ou em tempo ou em dinheiro -será perdido. Deves continuar estudando em bons livros, que melhor de instruam nas doutrinas de Deus.

Papai me pede para dizer-te que está bem impressionado e manda aconselhar-te que tenhas cuidado de não ler os teus sermões(21).

Em outra carta, pouco depois, Miss Kay o exortava:

Deus deve receber toda a glória, não somente por ter implantado em nosso coração a graça divina, porém também por toda ação conseqüente dessa Graça em nós. Não existe o exercício da fé, ou manifestação do amor, a não ser pela influência imediata do Espírito Santo - tão dependentes que somos de suas ações(22).

Com esperança de ser enviado à china, o Doutor, em 1836 à Junta Missionária da Igreja da Escócia oferecendo-se para servir como médico-missionário e evangelista em Cantão, naquele país, continuando o trabalho que Robert Morrison deixara interrompido por seu falecimento em 1834. O oferecimento não foi aceito, não só pelos muitos outros compromissos que Junta já possuía como também pelo de não estar a China incluída em seu campo missionário. Não havendo possibilidade de trabalhar no campo estrangeiro ligado à sua própria Igreja, Kalley dirigiu-se, então à Sociedade Missionária de Londres. A princípio, a oferta não foi bem aceita, mas logo depois, em 1837, a Sociedade resolveu enviar um médico-missionário à China. O Doutor alegrou-se com essa oportunidade que lhe aparecia. Entrou mais uma vez em correspondência com a Sociedade, pedindo informações quanto às exigências dela para a aceitação de sua candidatura. Foi enviado um memorandum, onde se salientavam os seguintes pontos:

  1. A Sociedade ainda não havia enviado médicos, como tais, ao campo missionário, mas, agora, estava encarando a necessidade de suprir com essa especialidade, seus trabalhos no oriente.

  2. A teologia é indispensável. Para a China e a ìndia é necessário que o candidato possua também uma preparação em letra clássicas, assim como em artes e ciências.

  3. Para a África e Oceania, além do acima mencionado, um bom treinamento em trabalhos manuais.

  4. As dificuldades são grandes. Mas a grande montanha oferecida por elas, pelo poder da verdade e do Espírito Santos pode tornar-se planície de grandes vitórias no evangelho.

  5. O candidato deveria inscrever-se oficialmente, apresentando algumas cartas de referência(23).

Conseguida a inscrição, com a apresentação das cartas de referência exigidas, e depois de examinado pelo Comitê de recepção na cidade de Londres, no dia 7 de novembro de 1837 foi o Doutor inscrito como candidato ao trabalho na China, com previsões para partir de 1839. Aconselhado pelo Comitê, voltou à Universidade de Glasgow para "desenvolver seus conhecimentos em alguns ramos da ciência médica e em teologia". Começou também um curso das línguas grega e hebraica, para melhor comparar os textos da versão inglesa das Escrituras com os originais. Vendeu sua casa e seu consultório médico em Kilmarnock, procurando desembaraçar-se de seus compromissos locais, para ficar mias livre em seus preparativos de viagem(24).

No dia 5 de dezembro viajou para Paisley, onde pediu a mão de Margarida em casamento. Era a jovem que havia conhecido em 1833. Sobre ela e seu pretendido enlace havia conversado com o secretário da Sociedade. Seria conveniente que ela ficasse por algum tempo em alguma instituição de ensino bíblico e missionário enquanto ele completava seus cursos adicionais no Hospital e na Universidade. A respeito de Margarida, o Doutor escreve:

Ela desejava ardentemente entrar para o serviço de Cristo, ou ensinando ou em qualquer outra atividade em que seus talentos pudessem ser aproveitados. Consente no casamento e sua mãe também.

É uma jovem bem capacitada para o trabalho missionário. Possui fina educação. Tem servido como secretária do pai em seus negócios.

Dotada de gênio muito alegre, é consagrada e tem visão da obra de Missões.

Quanto ao físico, não é muito robusta e não seria capaz, creio eu, de enfrentar as durezas de alguns campos missionários. Foi criada com muito conforto. Espero, porém, que, embora delicada, sua estrutura seja perfeitamente sã e se dê bem em clima suava.

Seus poderes intelectuais a capacitam para os trabalhos de tradução ou qualquer atividade que se relacione com o redigir ou escrever, como também com o ensino, direção de escolas etc.(25).

O consultório de Kilmarnock, assim com seus clientes, ficaram, após a venda, aos cuidados de um jovem médico, seu amigo, que mais tarde se tornaria também seu cunhado, pois veio a casar-se com Jane Kalley(26).

A 9 de janeiro de 1838 foi convidado para fazer uma palestra numa das reuniões da Sociedade Missionária da Escócia, onde falou sobre a China e a urgente necessidade da pregação do evangelho no Extremo Oriente da Ásia. Essa palestra constitui-se na chamada divina para um dos seus ouvintes, que resolveu oferecer-se ao Senhor para o trabalho missionário naquele país. Foi o renomado missionário William Chalmers Burns, que realizou uma obra de incalculável valor na abertura de preciosas portas de penetração do evangelho naquele território. É interessante saber que a vida do Dr. Burns, sua grande piedade cristã e a sua amizade muito ajudaram Hudson Taylor em seu abençoado ministério. Taylor, por sua vez, se tornaria grande amigo, mais tarde, de Kalley e de D. Sarah, sua segunda esposa, fazendo o sermão de despedida no dia do enterro do Doutor, em 24 de janeiro de 1888, e estando entre os fundadores, ao lado de D. Sarah, Rev. James Fanstone, Dr. João Gomes da Rocha e mais oito companheiros, de Help for Brazil Mission, que sob inspiração de D. Sarah e do Rev. Fanstone se organizou em Edimburgo, em 1892(27).

Em uma reunião de despedida a seus amigos e clientes, solicitou encarecidamente suas orações, tanto na Igreja como nos lares, por ele e pela China. Mal supunha, porém, que os desígnios de Deus, que chama seus obreiros e lhes designa os campos, não o levariam para a China, conforme seus projetos pessoais.

Miss Margarida, de seu lado, preparava-se também para os deveres de esposa e auxiliar do missionário. Ela mesma sentia o apelo das Missões. O ministro da Igreja Escocesa, pastor de sua igreja em Paisley, escreveu a seu respeito:

Fora batizada por mim e criada na minha congregação. Assistiu às classes bíblicas para instrução da juventude por vários anos. Assim estava bem versada no conhecimento das Escrituras. É profundamente evangélica e possuidora de uma alma piedosa. Seu coração está fixo na obra missionária, para a qual a considero bem capacitada(28).

Nessa preparação para a obra ao lado do Doutor, mudou-se para Glasgow, onde pretendia tirar alguns cursos. Hospedou-se em casa de amigos. Era no mês de janeiro, tempo de frio muito intenso naquela região. Uma noite, alguém, por descuido, deixou aberta uma janela. O resultado foi Miss Margarida contrair uma forte pneumonia, que, por sua vez, revelou algo de mais grave: princípio de tuberculose(29).

Sentindo a gravidade do estado de saúde da noiva e que, por isso não seria aprovada pela Sociedade para o trabalho missionário, o que fatalmente acarretaria o cancelamento de sua própria indicação, o Doutor Kalley procurou imediatamente entrar em contacto com os diretores da Sociedade em Londres. Desobrigou-se de seus compromisso para com ela, propondo-se a indenizá-la de todas as despesas que ela houvesse tido com sua inscrição e com os estudos preparatórios na Universidade. A Sociedade, em 30 de janeiro, em vista dos fatos cancelou seu contrato com ele, admitindo que, "se em qualquer tempo ele sentisse ser de seu dever entregar-se à obra missionária em conexão com ela, seria dispensada a melhor atenção a qualquer pedido que ele julgasse próprio fazer"(30).

No dia 2 de fevereiro foi celebrado o casamento de Roberto e Margarida em Paisley, na residência da genitora da noiva(31). O Doutor continuou, com recursos próprios, os estudos de Teologia e Medicina necessários no ministério missionário, pois tinha ainda no seu coração os caminhos do Oriente. Na turma de sua formatura, em 1º de maio de 1838, aparece também o nome de William Chalmers Burns, que conquistara a medalha de prata por sua aplicação(32).

Durante o verão daquele ano, em junho, julho e agosto, ficou evidente que a Srª. Kalley não suportaria os rigores do inverno que se vinha aproximando. Não somente ela, mas também uma de suas irmãs, Annie, precisavam transportar-se para uma região de clima mais ameno(33).

Lembrando-se da Ilha da Madeira, onde estivera alguns anos antes, e do clima salubérrimo que oferecia, o Doutor resolveu, de acordo com Margarida, que ali residiriam por algum tempo até que estivessem em condições de se transferirem para Cantão. A Srª. Crawford sentiu necessidade de acompanhar as filhas, e a outra filha menor, Elisabeth, também se juntou ao grupo. Tomaram passagem no navio Jane, barco a vela, veloz, de 356 toneladas, que zarpou de Greenock no dia 27 de setembro. A viagem transcorreu sem nenhum contra-tempo. Alguns passageiros assistiam aos cultos matutinos e vespertinos dirigidos pelo Doutor, que não encontrou, embora procurasse nenhum interesse da tripulação em ouvi-lo falar de assuntos religiosos(34).

No dia 11 de outubro atingiram a ilha. Não sendo possível o desembarque naquele dia, o navio ancorou ao largo e só no dia 12 fundeou na baía de Funchal. A tardinha, o Doutor e a família puderam desembarcar. Por pouco tempo, julgava ele, mas Deus o reteve ali por oito anos, num ministério pioneiro e difícil, a que o Dr. A. Bonar, a ele referindo-se na Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, chamou de " o maior acontecimento das missões modernas".

(2) Testa Michael P., ob cit. 18; Barros Rosa, Manuscritos sobre Robert Reid Kalley, 1; Rocha; João Gomes, ob. cit. 91.
(3) Barros, Rosa, ob. cit. 2; testa Michael P., ob. cit 18; Rocha, ob. cit. 90.
(4) Silva Jr., Ismael, ob. cit. 13; Barros, Rosa, ob. cit 2.
(5) Barros, Rosa, ob. cit. 2.
(6) idem, 3.
(7) Silva Jr., Ismael, ob. cit. 14.
(8) Rocha, João Gomes, ob. cit. 91; Barros, Rosa, ob. cit. 3.
(9) Rocha, João Gomes, ob. cit. 91; barros, Rosa, ob. cit. 4.
(10) Barros, Rosa, ob. cit. 5; Rocha, João Gomes, ob. cit. 92.
(11) Barros, Rosa, idem 6.
(12) Barros, Rosa, idem 6, 7; Rocha, João Gomes, idem 93.
(13) Silva Jr., Ismael, ob. cit. 14.
(14) Barros, Rosa, ob. cit. 8.
(15) idem, 9.
(16) idem, 9, 10.
(17) Rocha, João Gomes, ob. cit. 94; Testa, Michael P., ob. cit. 19; Barros, Rosa, ob. cit.,10, 11.
(18) Barros, Rosa, ob. cit. 11.
(19) Silva Jr., Ismael, ob. cit. 18.
(20) Barros, Rosa, ob. cit.11.
(21) idem, 14.
(22) Barros, Rosa, ob. cit. 15; Rocha, João Gomes, ob. cit. 98.
(23) Barros, Rosa, ob. cit. 19; Testa, Michael P., ob. cit. 23.
(24) Barros, Rosa, ob. cit. 20.
(25) idem, 21.
(26) idem, 21.
(27) idem, 22.
(28) idem, 23.
(29) idem, 24.
(30) Testa, Michael P., ob. cit.24.
(31) Barros, Rosa, ob. cit. 24.
(32) Testa, Michael P., ob. cit. 24; Barros, Rosa, ob. cit. 24.
(33) Barros, Rosa, ob. cit. 25.
(34) Testa, Michael P., ob. cit. 25; Barros Rosa, ob. cit. 25

(Texto extraído do livro I A epopéia da Ilha da Madeira de autoria do Rev. Manuel Porto Filho pag. 15 a 24)

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