Ilha da Madeira (1838 a 1846

Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes. (Salmos 126:5-6)

"Acho estranho encontrar-me numa pequena ilha no meio do oceano, em vez de avançar para onde supus ser o campo da minha chamada cristã - o mais largo e mais extenso campo de serviço cristão. Contudo, posso dizer: Usa-me, Pai, como pareça melhor aos Teus olhos".

A comunidade britânica já tinha dois médicos na Madeira, o que deixava ao Dr. Kalley liberdade para cuidar mais particularmente de portugueses pobres. Naquela ilha superlotada de gente, onde a distinção de classes era bastante acentuada, ficavam os pobres sem cuidados médicos, insuficientes até para os mais ricos.

Mas o Dr. Kalley, que era um escocês prático, prontificou-se a tomar sobre si a missão de servir aos pobres nas suas necessidades de assistência médica. Todavia, a prática de medicina e de cirurgia foi a maneira de chegar ao seu fim principal, a evangelização dos pobres e analfabetos, com a mesma dedicação e paixão que o incitaram de início a seguir como missionário para a China.

Em 1840, instalou no Funchal, por sua conta, um hospital de doze camas, que incluía serviços de clínica e farmácia. Oferecia aos pobres tratamento e hospitalização gratuitos, sem lhes apresentar conta dos seus serviços médicos, nem do fornecimento de medicamentos. Muitos ricos igualmente requeriam a assistência médica do Dr. Kalley, mas estes pagavam bem seus serviços. O seu fim ao cobrar contas elevadas aos ricos, segundo o seu próprio testamunho, era afastá-los, para lhe deixarem o tempo livre para o cuidado dos pobres... E estas verbas eram usadas para suportar os encargos do hospital, bem como muitas outras despesas que fazia com os pobrezinhos(18).

A dedicação profissional de Dr. Kalley, bem como a sua generosidade invulgar, eram retribuídas com gratidão, afeto e estima tanto dos pobres como dos ricos. Os pobres, movidos pela bondade pessoal, referiam-se a ele como "o santo inglês" e através de toda ilha era conhecido como "o bom doutor inglês".

O Dr. Robert Reid Kalley era um homem com a estatura e a dignidade dum chefe, era uma figura sempre notável, onde quer que comparecesse. Tinha o aspecto de um verdadeiro escocês, sem dolo, forte e resoluto. A sua simpatia, delicadeza e bondade tornaram-no um homem de aptidões invulgares e de nobre caráter, possuindo grande abnegação e amor ao próximo(19). Inspirava confiança. A sua carreira médica e o interesse constatne de servir aos seus semelhantes forneceram-lhe os meios de comunicação imediata e direta de contacto com o povo. Escolas elementares, diurnas para crianças e noturnas para adultos, foram abertas por esse independente missionário, em vários pontos da ilha, fornecendo ele os professores, mobiliário e livros indispensáveis. Foi um plano sem precedentes, visto que jamais houvera na Madeira qualquer sistema de escolas públicas gratuitas e, por isso mesmo, a maioria da população não sabia ler nem escrever(20). O padrão educacional vigente limitava-se às famílias mais abastadas que enviavam o filho mais velho para uma escola paroquial, enquanto os mais novos, por sua vez, aprendiam o que podiam com o mais favorecido(21).

A necessidade desesperadora e o desejo imperioso de educação determinaram a decisão de criar um programa de ensino. Com a generosa ajuda de amigos, fizeram-se os preparativos indispensáveis a um sistema de educação que funcionaria em algumas casas pertencentes àqueles que estavam aptos e desejosos de dar uma educação rudimentar aos outros. as escolas não eram mais que pobres choupanas, cujos alunos provinham das quintas próximas, pequenas escolas gratuitas que cumpririam a grande missão a que se propuseram, graças à dedicação dum pequeno grupo de professores, que nem sequer esperavam grande recompensa(22). Assim, um século antes de celebrado Método Laubach, o Dr. Robert Reid Kalley já instituía o movimento pró-alfabetização, conhecido pelo moto - cada um ensina um outro.

A resposta, em termos de apreciação e resultado, foi atestada pelo extraordinário número de matrículas verificado nas escolas e pelo rápido progresso na aprendizagem. Dezessete escolas forma criadas, as quais comportavam mais de oitocentos adultos. O dr. Kalley atestou:

"Centenas de homens, após os seus trabalhos duros nos campos, iam à escola de noite, e, em quase todos os casos, eram movidos por um desejo de ler não as palavras dos homens, mas a de Deus(23)... Eu creio que cerca de duas mil e quinhentas pessoas freqüentavam estas escolas, num período mais ou menos longo, entre os anos de 1839 a 1845, e que para cima de um milhar entre as idades de quinze e trinta anos, aprenderam a ler as Escrituras inteligentemente ficando aptos a estudá-las por si mesmos"(24).

A Bíblia era o principal livro de texto, e, mais de três mil exemplares das Escrituras, foram distribuídos entre os anos de 1839 a 1845(25). Estes foram os únicos exemplares da Bíblia existentes na Madeira, à exceção de oitenta volumes que consignados por expresso desejo da rainha de Portugal, D. maria II, foram enviados para uso do clero a 3 de janeiro de 1842(26).

A natureza evangelística do ministério do Dr. Kalley começava a tomar forma silenciosa e muito modestamente, em conversas que o doutor tinha com os seus pacientes, e através do uso da Bíblia nas escolas domésticas. Mas, os pobres, como nos dias de Jesus, ouviam o Evangelho, alegremente e respondiam entusiasticamente à orientação espiritual do seu doutor, professor e benfeitor. Nas suas "Notas" o Dr. Kalley deixou esta introdução:

"Em 1839 uns poucos mostraram grande desejo de ler e ouvir a Palavra de Deus. Em 1840 este interesse cresceu um pouco e muitos adultos foram para a escola porque queriam aprender a ler a Bíblia. Em 1841 cresceu ainda mais. Em 1842, especialmente no verão e no outono, o povo acorreu em grande número para ouvir as Escrituras lidas e explicadas. Muitos deles caminhavam durante dez ou doze horas e escalavam montanhas de mil metros de altitude à ida e à volta para suas casas; durante muitos meses, creio, não havia menos que um milhar de presenças cada Domingo; geralmente excediam os dois milhares; ocasionalmente três milhares e uma vez forma cerca de cinco mil"(27).

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Qual era a forte atração que compelia estas multidões para a montanha no dia do Senhor, dos pontos mais difíceis e distantes da Ilha? Eles eram atraídos pela exposição simples e clara de passagens bíblicas, e pela oportunidade de participarem no Cântico das doutrinas cristãs postas em hinos que o próprio Dr. Kalley escrevia e compilava. Ficavam visivelmente comovidos pela pregação efetiva das doutrinas evangélicas. Os temas dos sermões eram baseados na infinita graça de Deus; Cristo, o Salvador todo-poderoso; a presença do Espírito Santos, o Confortador e Santificador (28). Indubitavelmente, o povo da ilha era igualmente atraído àquele homem cuja maneira de viver dava autoridade à sua mensagem e testemunhava do poder de uma vida dedicada.

Foi na Ilha da Madeira que o Dr. Kalley compôs os primeiros hinos evangélicos da língua portuguesa, e onde preparou os primeiros panfletos em português. Em 1842 escreveu os hinos "Louvemos todos ao Pai do Céu" e "Meu fiel Pastor". Estes hinos tornaram-se tão populares que podiam ser ouvidos nos campos, cantados pelos trabalhadores em quase todos os recantos da ilha(29). Entre os panfletos que foram publicados durante este período podem mencionar-se: "O Sr. Esperança da Glória", "O professor Gomes e o bom farmacêutico Faria", e "A Grande Festa", ou "O melhor alimento para os famintos"(30). Antes da sua expulsão da Madeira, o Dr. Kalley tinha também completado a primeira tradução de "O Peregrino", de John Bunyan.

Era óbvio que um movimento de tal magnitude e aceitabilidade chamasse a atenção das autoridades portuguesas e causasse alarme na chancelaria do Bispo da Madeira. Inicialmente a cidade do Funchal distinguira publicamente o Dr. Kalley pelos seus "esforços filantrópicos" a favor dos pobres, doentes e analfabetos. A 25 de maio de 1841, na publicação "Atas da Câmara do Governo Municipal", apareceu um menção de gratidão ao "bom doutor inglês"(31). Simultaneamente contudo, começavam a ouvir-se murmúrios de protesto. No mesmo mês o Bispo da Madeira, que era cliente e amigo do Dr. Kalley, comunicou-lhe ter recebido uma cara de Lisboa recomendando-lhe que estimulasse as autoridades governamentais enfraquecer as atividades médicas e educacionais que prejudicassem a "ordem normal". O Bispo tinha o doutor em grande estima e por isso apelou para que ele renunciasse ao seu apostolado. Isto era impossível para quem estava sob as ordens divinas.

O Ano seguinte de 1842 foi marcadamente frutífero. As escolas domésticas multiplicaram-se em virtude do rápido aumento das matrículas. A assistência às escolas noturnas, onde a Bíblia era lida e explicada, abriram durante os meses de verão e de outono. Não era difícil reunirem-se duas mil pessoas numa colina ou numa ou numa herdade para ouvirem pregar o Evangelho. O ensino do Novo Testamento e a sua aplicação à vida tornou-se tema de conversações nos lares ou nos campos, nos caminhos e nos mercados. Era impossível conservar em armazém os exemplares da Bíblia ou do Novo Testamento; eles eram comprados pelo povo tão rapidamente quanto as reduzidas remessas chegavam de Londres, enviadas pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. O que mais imediatamente atraía e encantava aqueles novos seguidores era o cântico de hinos evangélicos. Por todos os recantos da ilha se podia encontrar gente que conhecia os "hinos calvinistas", nome dado à versão métrica dos salmos traduzidos.

O grande interesse e o fervor evangélico dos ilhéus colocou na defensiva o clero católico romano. Sob as ordens do cónego Carlos Teles de Meneses, muitas tentativas foram feitas, sem sucesso algum, para incitar a oposição fanática contra aquela onda de testemunho evangélico. Começou no último janeiro de 1843 a latente hostilidade do clero católico romano e tomou expressão trágica num movimento anti-herético, que em breve assumiu proporções alarmantes. Instigações contra os hereges calvinistas, nome dado aos cristãos reformados, eram lançadas dos púlpitos. Dichotes ridículos eram ensinados às crianças(32). Ouviam-se discussões azedas nas lojas ou nas esquinas e artigos e panfletos de polêmica inflamada eram distribuídos abundantemente. Estes foram refutados calma, lógica e escrituristicamente, num panfleto intitulado"Uma exposição dos fatos"(33).

Em setembro de 1843 os serviços médicos do Dr. Kalley foram proibidos por interpretação da lei que estabelece que "só um farmacêutico pode exercer farmacologia". O doutor requereu permissão de submeter-se ao exame oficial de farmacologia e foi informado que poderia fazê-lo,"mas se o sr. exercer farmacologia, não poderá exercer a medicina. Ninguém pode ser as duas coisas ao mesmo tempo"(34). Esta decisão, que negava medicamentos grátis aos pobres, afetou seriamente a utilidade do Dr. Kalley no tratamento médico daqueles que le mais desejava ajudar. "Não há utilidade em tê-los com meus clientes", disse ele, "desde que não lhes sejam fornecidos remédios"(35).

O mesmo município que em 1841 tinha agraciado publicamente o Dr. Kalley com benfeitor, por ele ter estabelecido uma cadeia de escolas na ilha, agora, dois anos volvidos, impõe o encerramento das escolas(36). Foram colocados guardas nas escolas domésticas para manterem a ordem e a polícia estacionava à porta do Dr. Kalley para observar as suas atividades. Depois de cerrada vigilância enfraqueceu a pressão e as classes ficaram reduzidas às escolas mais distantes da capital, Funchal. O esforço foi rapidamente abandonado quando a 11 de janeiro de 1843, um professor, sua esposa e um filho foram presos, acusados de desobediência civil por ensinarem sem o respectivo diploma(37). No mesmo dia outra crente acusada de "ler e explicar a Palavra de Deus" foi condenada a quatro meses de prisão(38).

Os serviços médicos que o Dr. Kalley tornara acessíveis aos pobres estavam limitados por decreto, e o programa de ensino que ele estabelecera era proibido por lei. A sua pregação e ministério evangélico também caíram por terra sob restrição legal. Em palavras do Dr. Kalley, dirigida à Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, reunida em Inverness durante o mês de Agosto de 1845, lemos:

"Próximo ao tempo em que esta lei, afetando o exercício do meu trabalho médico, foi passada, uma decisão foi tomada pelo tribunal de Lisbos, declarando criminoso, a cidadãos ingleses, ensinar em reuniões de portugueses, doutrinas contrárias à religião do Estado. Depois de receber uma cópia desta decisão, não me senti em liberdade para continuar a manter as reuniões religiosas com portugueses e as suspendi imediatamente"(39).

Atingiu-se o clímax dessa situação quando as autoridades portuguesas, tanto do Estado como da Igreja, uniram forças contra o Dr. Kalley. Por mais de uma ocasião aconteceu, perseguindo-o mesmo contra a lei, interromperem reuniões em sua própria casa. Finalmente, invocando uma lei inquisitorial datada de 1603, contra a heresia, as autoridades civis ordenaram a prisão do Dr. Kalley e levaram-no para a prisão do Funchal, onde havia de permanecer durante seis meses.

Os residentes ingleses da Madeira, a Igreja Livre da Escócia, a Sociedade Missionária de Londres, outros indivíduos e instituições foram ativos em procurar meios para a libertação do Dr. Kalley. Um panfleto em sua defesa foi publicado em Londres, por "um inglês residente na Madeira"(40). A Igreja da Escócia, em certa circular, chamou a "atenção das várias denominações religiosas" e do público cristão em geral, para sofrimentos do nosso amado irmão Dr. Kalley, agora preso pelo Evangelho, na Ilha da Madeira(41).

Nessa prisão, há cento e dezenove anos teve um encontro da Comissão Administrativa da Igreja da Escócia, então recentemente organizada. Tudo o que foi preservado desta reunião se encontra aqui expresso:

"Ata do encontro dos Administradores da Igreja da Escócia, reunidos na cela do Dr. Kalley na cadeia da cidade, a fim de que o Rev. Sr. Wood seja nomeado ministro da Igreja da Escócia neste lugar.

Funchal, 15 de dezembro de 1843.

Presentes: Sr. Fullarton, pres., Sr. Grant, Dr. Kalley, Sr. Innes, e o Rev. J.J. Julius Wood".

Esta singela nota de agenda de trabalho, do encontro realizado numa fria cela da prisão, em que tomaram parte cinco homens, não foi insignificante. Os obreiros da Igreja da Escócia encontram-se para receber e examinar uma carta do secretário para os planos coloniais da Igreja Livre da Escócia, anunciando a colocação do Rev. Julius Wood no pastorado da Igreja Escocesa no Funchal, Madeira. Em que estranhas circunstâncias e em que horrendo ambiente para um ministro, foi feita esta nomeação pastoral!

As atas não fazem referência a qualquer outro documento recebido pelos administradores nesse dia, o qual está ainda para se encontrado nos arquivos do Consulado Britânico no Funchal. Havia o documento oficial passado por Lord Alberdeen, Secretário do Estado da Grã-Bretanha para Assuntos Estrangeiros, atendendo ao pedido da Congregação em que "o Cônsul de sua Majestade estava autorizado a permitir ao ministro Presbiteriano, o registro de nascimento, casamento e óbitos no Consulado Britânico".

Apesar disso, esta autoridade foi anulada dentro de três meses. O Governo de Sua Majestade tinha a impressão, quando autorizou os registros, que o ministro pertencia à Igreja oficial da Escócia(42). Assim, quinze meses volvidos, o Rev. J. Julius Wood terminou o seu ministério na Madeira para tomar um cargo pastoral inferior na Escócia. A nomeação do novo ministro e a autorização de registros de nascimento, casamento e óbito, no Consulado Britânico, como é óbvio, não foram elementos de primordial importância no drama daquele dia de inverno, em que homens de responsabilidade se reuniram constituindo um conselho eclesiástico, numa cadeia da cidade. O fato de suma importância foi a prisão do Dr. Kalley, e seu julgamento por causa do seu zelo na proclamação do Evangelho aos Madeirenses. Desde que ele fora acusado de cumplicidade em heresia e apostasia tinha de suportar a prisão, sem direito de fiança(43).

Durante os seis meses que o Dr. Kalley ocupou a cela na cadeia da cidade, desde julho de 1843, foi-lhe concedida a permissão de ter até três visitantes ao mesmo tempo, mas com a proibição de cantar hinos com eles ou de ler a Bíblia. Podia ver-se diariamente uma procissão de camponeses, vindos de pontos distantes da ilha, assim como muito povo do Funchal, aguardando a sua vez à porta da prisão para visitarem "o santo inglês". Estes eram freqüentemente escarnecidos e injuriados pela gentalha, mas não se intimidavam nem reagiam hostilmente contra os seus perseguidores. A catedral ficava perto da prisão e, frequentemente, fiéis católicos romanos no seu caminho para a missa, mostravam o seu fervor religioso cuspindo sobre os "hereges calvinistas"(44). A proclamação oral do Evangelho silenciou temporariamente, e o clero proibiu a posse ou o uso da Palavra impressa, a Bíblia. No outono daquele mesmo ano, o bispo-eleito, D. Januário Vicente Camacho, emitiu uma carta pastoral que foi lida em todos os púlpitos. Esta pastoral estabelecia que a Bíblia em circulação na ilha, embora apresentando-se como uma versão da Bíblia traduzida pelo Padre Antonio Pereira de Figueiredo(45), estava seriamente adulterada". D. Januário condenava completamente a leitura da Bíblia e excomungava, "ipso facto", todo aquele que continuasse a possuir ou ler a Bíblia(46).

Enquanto esteve na prisão, o Dr. Kalley fez uma cuidadosa coleção das edições de Lisboa e Londres da Bíblia traduzida pelo Padre Figueiredo, e encontrou apenas cinco versos que continham leves variantes e dois erros tipográficos. O seu propósito de publicar o resultado das suas pesquisas num panfleto, tornou-se desnecessário, quando um jornal da Ilha Terceira, Açores, aceitou a discussão do assunto(47). Continha o folheto uma transcrição do Mandato Real, datado de 17 de outubro de 1842(48), acerca da verdadeira edição da Bíblia, que o vice-cônsul britânico em Ponta Delgada, Sr. Thomas Carew-Hunt, tinha recebido da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira de Londres para distribuição na Ilha Terceira. Estabelecia ainda que Sua Majestade a Rainha, com a aprovação do Patriarca Arcebispo eleito, Frei Francisco de S. Luís, aprovava a edição londrina da tradução da Bíblia por Figueiredo e recomendava que ela devia circular na Terceira pelo benefício moral e espiritual dos seus súditos.

Mas a determinação de destruir o movimento nascente do evangelismo era implacável. Os dois primeiros convertidos que tiveram assento à Mesa do Senhor, na comunhão da Igreja Presbiteriana da Escócia, no Funchal, Srs. Nicolau Tolentino Vieira e Francisco Pires Soares, foram excomungados(49). Sofreram tantas afrontas e maus tratos que, para salvarem a vida, fugiram para uma gruta na montanha onde permaneceram ocultos mais de um ano(50). Tudo isto aconteceu durante os meses em que o Dr. Kalley aguardava o julgamento. Mais vinte e seis hereges foram igualmente encarcerados(51), incluindo José Ferreira Lomelino, abastado proprietário que foi deportado para a África Ocidental Portuguesa por crime de heresia(52). Uma pobre mulher, D. Maria Joaquina Alves, mãe de sete filhos, foi igualmente presa sob acusação de apóstata, herege e blasfema(53).

Posto em liberdade, após seis meses de prisão sem julgamento, o Dr. Kalley retomou o seu arrojado trabalho, concentrando todos os seus esforços na paróquia de Santo Antonio da Serra, na montanha, a 24 quilômetros do Funchal, aproximadamente. Este havia de tornar-se num dos principais encontros de movimento protestante da ilha.

Das sua memórias podemos concluir que o seu zelo e a sua coragem não foram diminuídos pelos nesses de prisão, nem pelos acontecimentos que tinham ocorrido durante aquele período de afastamento do seu rebanho.

"Fui solto da cadeia em Janeiro de 1844 e retomei o caminho interrompido, porque o único juiz competente que se pronunciou a este respeito declarou não haver qualquer violação da lei nem da Constituição Portuguesa. A polícia continua vigilante, como dantes, mas, apesar de tudo a assistência média, durante o verão, em Santo Antonio da Serra, era de cerca de seiscentos aos domingos e trinta nas outras noites"(54).

A comissão Colonial da Igreja Livre da Escócia nomeou o Rev. William Hepburn Hewitson para tomar a responsabilidade do trabalho entre os portugueses da Madeira, organizar a Igreja entre eles, com presbíteros e diáconos, e desenvolver ainda o programa de educação elementar, iniciado pelo Rev. Dr. Robert Reid Kalley. Foi primeiramente enviado a Lisboa para estudar a língua, e três meses depois, em fevereiro de 1845, Mr. Hewitson chegou à Madeira. A nomeação foi feita sem o conhecimento do Dr. Kalley, cujo trabalho missionário não era dirigido nem sustentado pelo sua Igreja na Escócia. Contudo, o Dr. Kalley não se ressentiu com o que qualquer homem de menor envergadura teria tomado, justamente, como uma usurpação despótica. O seu espírito nobre revela-se-nos em suas "Memórias", onde faz estas referências, à chegada de Mr. Hewitson à madeira:"A sua presença foi verdadeiramente providencial"(55).

A hostilidade levada a cabo pela Igreja e pelo Estado chegou ao ponto de colocar o Dr. Kalley em face da alternativa de acabar com as suas reuniões religiosas ou de ser expulso da ilha. O Secretário Britânico para o Estrangeiro, Lord Aberdeen, preveniu o Dr. Kalley de que ele não seria defendido pelo su governo contra quaisquer medidas que as autoridades portuguesas adotassem para expulsá-lo da ilha, caso ele continuasse a receber madeirenses em sua casa para fins religiosos(56). Receando que as suas atividades pusessem em perigo a obra evangélica, e sentindo que a sua presença era necessária e vantajosa para centenas de pessoas já identificadas com o movimento envangélico, o Dr. Kalley colocou lealmente nas mão do Rev. Hewitson a direção do trabalho que havia começado com tanto sucesso e tanto sacrifício. "Se não houvesse ninguém para continuar o meu trabalho", escreveu ele, "sentir-me-ia muito triste; mas graças a Deus que temos aqui mão ainda melhor do que a minha, para polir as pedras"(57).

William Hepburn Hewitson nasceu em Ayr, a 16 de setembro de 1812,exibindo desde bastante jovem uma mente brilhante num corpo frágil. Foi distinguido como estudante excepcional dos clássicos, antes de entrar para Universidade de Edimburgo, onde conquistou os mais altos valores em Letras Clássicas e Lógica. A sua aplicação excessiva ao estudo, muitas vezes por vinte horas diárias(58), e o seu indomável desejo de exceder todos, sem sombra de dúvida, minaram, ainda mais, as suas já tão pobres forças físicas, e devem ter contribuído imenso para a doença, a tuberculose, que tão cedo lhe ceifou a vida.

No Colégio Teológico da mesma Universidade de Edimburgo, conquistou de novo prêmios e bolsas de estudo a par de invulgares qualidades de caráter sério e o espírito evangélico de Mr. Hewitson. Numa carta para um amigo em Edimburgo, datada de 15 de junho de 1840, pode descortinar-se o interesse quase místico de Mr. Hewitson pela vida espiritual:

"O cristão evangélico o é de coração, no espírito, e não na letra - cuja glória não vem do homem, mas de Deus... Se Cristo habita em nós, as evidências da Sua graciosa presença não são confusas nem ilegíveis. A fé que vivifica, ilumina igualmente, porque a fé é precisamente a graça de um Salvador que reside em nós; assim o Salvador é a vida, e "a vida é a luz do homem"(59).

Concluiu a sua graduação na Faculdade de Teologia, em Março de 1841, e foi considerado como um dos estudantes mais brilhantes e mais perfeitos do seu colégio(60). O seu estado de saúde, todavia, continuava a piorar de forma alarmante. A 23 de outubro de 1841, escreveu estas palavras de angústia numa carta a um amigo:

"Estou ainda fraco; cada dia que passa mais me convenço de que o meu estado quase quebrantado, necessita de um época de repouso maior do que previa. Para reunir forças para o trabalho do ministério devo tomar como preocupação principal, desde já, aprender a morrer diariamente... Estou resolvido a abster-me inteiramente de todo o estudo que não seja realmente necessário. O doutor disse-me que no meu estado atual qualquer outra doença pode facilmente tomar posse de mim, se eu não tiver cuidado, e pode ser-me fatal... eis que nós reputamos por felizes aqueles que sofrem"(61).

A "outra doença" apareceu e, a 8 de novembro, foi proibido pelos seus médicos de estudar durante um ano. A 4 de maio do ano seguinte, Mr. Hewitson foi licenciado pelo Presbitério de Ayr e seguiu para Bona, na Alemanha, com a esperança de mais rápida convalescença. Instalou-se em casa de um distinto filósofo, o professor Brandis. De lá escreveu numerosas cartas aos amigos da Escócia, nas quais apresenta o su ponto de vista quanto à situação religiosa na Alemanha, lamentando especialmente a falta de observância do Dia do Senhor e a natureza insípida e seca do culto, nas igrejas protestantes de Bona(62). Volvidos cerca de seis meses, a 20 de setembro, considerou-se suficientemente curado para regressar à Escócia. O exame médico, após a sua chegada a Edimburgo, foi satisfatório, mas os médicos avisaram Mr. Hewitson que tivesse o maior cuidado e continuasse em repouso durante mais seis meses. A comissão de relações missionárias e estrangeiras da Igreja Livre da Escócia, num esforço para ajudar o Rev. Willian H Hewitson a resolver o problema de sua saúde e num crescente desejo de iniciar o seu ministério, decidiu considerar aconselhável indicá-lo para um dos lugares ao Sul: França, Malta ou Madeira. A 17 de outubro de 1844, decidiram que fosse na Madeira por causa do clima favorável e porque um período para o estudo da língua permitiria tempo adicional para repouso e reclamaria uma atividade menos pesada. Consequentemente, a 7 de novembro foi ordenado pelo Presbitério de Edimburgo da Igreja Livre da Escócia e nomeado para o serviço missionário na Madeira. Os seus amigos, ao despedirem-se do inválido e exausto ministro, temeram, sem dúvida, que esta viagem para Portugal não fosse senão o primeiro passo na sua descida para a sepultura.

À sua chegada a Lisboa, a 7 de dezembro de 1844, Mr. Hewitson escreveu aos amigos da Escócia, comentando a agradável viagem e informando sobre a sua saúde, razoavelmente boa(63). Ele tinha vindo para a Madeira, passando por Lisboa, para tomar parte na responsabilidade que a Igreja Livre da Escócia tinha assumido nessa ilha estrangeira, e para escrever um capítulo no desenrolar do drama de testemunho, perseguição e exílio dos "hereges calvinistas" da Madeira.

No princípio, Mr. Hewitson residiu na casa pastoral com Rev. J. Julius Wood, que estava servindo como pastor da Igreja Escocesa. Um quarto da mesma residência era reservado para reuniões com pessoas interessadas e crentes portugueses, recentemente convertidos. O programa de evangelismo tinha de ser levado a cabo tão discretamente quanto possível e com considerável cuidado. Os portugueses eram admitidos na granja em grupos de dois e três na tentativa de escapar à vigilância das autoridades. O Sacramento da Ceia do Senhor, foi celebrado pela primeira vez em língua portuguesa de acordo com a liturgia Presbiteriana, naquela granja na noite de 25 de março de 1845. Foi celebrante o Rev. Hewitson que a ministrou a 34 portugueses convertidos. "Mais deviam ter admitidos, mas não havia lugar para eles. Foi uma ocasião muito abençoada. Observou-se o maior sigilo"(64).

Duas semanas antes, em casa de Miss Denniston, foram batizadas duas crianças, o primeiro batismo infantil entre os portugueses convertidos. Os pais, sob a coberta escura da noite precedente, caminharam durante quatro horas desde Santo Antonio da Serra, para apresentarem os seus filhos ao Sacramento do Batismo(65). Apesar do perigo da cadeia, a junta da Igreja reorganizada recebeu muitos pedidos de batismo e muitas inscrições de candidatos à admissão à mesa do Senhor. Trinta novos comungantes, após um curso intensivo de instrução, foram admitidos na celebração seguinte da Ceia do Senhor, a 20 de abril, tendo participado no sacramento um total de 61 crentes(66). O Rev. J. Julius Wood, escrevendo que aquelas reuniões recordavam as experiências da Igreja Primitiva, diz: "Muitos ficaram profundamente emocionados; Mr. Hewitson falou acerca do Filho Pródigo. Foi a primeira vez que eu o ouvi pregar em português, e fiquei deveras impressionado com a sua fluência, o seu domínio da língua e a perfeição da sua pronúncia"(67).

A comunidade crescente de crentes evangélicos foi organizada como igreja a 8 de maio de 1845 e foram eleitos e ordenados para constituir o Consistório da primeira Igreja Presbiteriana Portuguesa, os seguintes presbíteros: Arsênio N. da Silva, João de Freitas, João Carreira, Martinho José de Sousa, João de Gouveia e Manuel Joaquim de Andrade. Foram também eleitos e ordenados os seguintes diáconos: Antonio de Matos, Antonio Carreira, José Marques, Joaquim Vieira e Manuel Pires(68).

Mais tarde, nesse mês, o Rev. J.Julius Wood regressou à Escócia e Mr. Hewitson trocou então a granja por uma casa mais afastada. A despeito da sua doença crônica, trabalhou incessantemente, viajando através da ilha para servir a pequenos grupos de crentes, sempre sob a ameaça de prisão. assim informou a Comissão Colonial da Escócia:

"Fui visitado por um notário público, que me apresentou intimação da Administração da polícia, admoestando-me para que ponha termo às reuniões religiosas em minha casa com súditos portugueses, sob pena de ser processado e de ser entregue ao poder judicial"(69).

As ameaças e perseguições não surtiram o efeito de impedir o crescimento da Causa Evangélica ou de suspender o aumento do número de convertidos. Aquele movimento, iniciado pelo Dr. Robert Reid Kalley e continuado pelo Rev. W. H. Hewitson, assumiu tão dramáticas proporções que Dr. Andrew Bonar o descreveu, na reunião da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, que teve lugar em Edimburgo em maio de 1846, como "o maior acontecimento das missões modernas"(70).

Finalmente, a 5 de maio de 1845, D. Maria Joaquina Alves foi posta em liberdade, depois de cumprir dois anos e meio de prisão. Após dezesseis meses de separação da família, inclusive de uma filha pequenina, foi levada a julgamento no dia 2 de maio de 1844. Era acusada de apostasia, de heresia e blasfêmia mas deu-se ênfase apenas à última. Em resposta à pergunta que lhe fez o juiz:

Acredita que na hóstia consagrada está o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue, a alma humana e a Divindade de Jesus Cristo?"(71), ela respondeu calma e firmemente: "Não creio". O julgamento terminou com essa resposta, pela qual foi condenada à morte(72). Mas a pena foi comutada pelo Tribunal de Relação de Lisboa, a 5 de fevereiro de 1845, em virtude dum erro técnico do julgamento. Tendo sido julgada somente por blasfêmia, descobriu-se que ela não podia ser condenada por heresia e apostasia(73).

No dia seguinte à sua libertação, D. Maria Joaquina esteve presente no culto e pediu que a aceitassem como membro da igreja. Sem dúvida, poucos podiam apresentar melhores e mais aceitáveis credenciais de fidelidade e firmeza, em tão perigosas condições. Ela tornou-se um símbolo para os crentes evangélicos e provou a sua prontidão para sofrer e arriscar tudo em defesa da sua consciência e de sua lealdade a Cristo.

No outono de 1845 houve uma aceleração notável, em tempo e grau, da agressiva atividade e oposição contra os "hereges calvinistas", nome pelo qual os cristãos evangélicos eram conhecidos entre os seus compatriotas intolerantes. O seu testemunho trouxe-lhes sofrimentos em casa e arredores e sérias dificuldades nos empregos e diante das autoridades civis. Numa carta ao convocador da Comissão Colonial da Igreja Livre da Escócia, datada de 17 de dezembro de 1845, o Rev. William H. Hewitson, apresentou a situação, nas seguintes palavras:

"O povo da Serra está ainda preso e é impossível predizer quando será julgado.... O número atual de crentes, presos por lerem a Palavra de Deus e por outras ofensas contra o homem do pecado, é de vinte e oito. Seis deles foram capturados há poucas semanas. O seu crime foi terem-se reunido num domingo à noite para se edificarem uns aos outros pela oração e leitura da Palavra. Três outras pessoas foram presas no mesmo tempo, mas obtiveram logo a liberdade, por comprovada ilegalidade da sua prisão....Uma família de três pessoas foi avisada de que uma sentença de deportação por 7 anos para a África, acrescida de pesada multa, estava já pronta, contra eles e pendia sobre as suas cabeças pelo fato de não se confessarem e por delitos semelhantes. Antes que eles fossem formalmente condenados, escaparam à pena, fugindo da ilha para Demerara. Aqueles que abraçaram a verdade têm, com raras exceções, permanecido firmes aos assaltos da perseguição. Tenho a certeza de que há alguns aqui que lêem a Bíblia em segredo, e só esperam a salvação em Cristo, sem terem confiança bastante no Senhor para O confessarem abertamente. Elias foi a única testemunha pública de Deus em Israel, ainda que Deus tivesse em Israel sete mil que prestavam culto às escondidas. É bom louvar ao verdadeiro Deus, mesmo em oculto; mas é melhor ser uma testemunha visível, um Elias"(74).

Mr. Hewitson, sob vigilância e ameaça de expulsão, deixou a Madeira no princípio de maio de 1846, com o propósito de voltar ao seu "amado rebanho" após alguns meses em Inglaterra. Mas não lhe foi permitido o regresso à Madeira. A grande torrente de hostilidade lançada contra os "hereges calvinistas" estava preste a rebentar em tremenda fúria. O assassínio foi sugerido na imprensa como resposta ao movimento herético(75). Recomendava-se o uso do chicote como argumento que os camponeses podiam sentir e compreender; e propunha-se a repetição do dia de S. Bartolomeu ou da Véspera Siciliana(76). Durante os meses de junho e julho, com alguns intervalos, a multidão era incitada a cometer atrocidades e os protestantes, sem oferecerem resistência, eram cruelmente espancados e apedrejados e cinco casas foram queimadas. Houve famílias a quem foi recusado o direito de um palmo de terra para enterrar os seus mortos, à exceção dos caminhos públicos(77). Com entusiasmo sempre crescente eram apontadas as forcas e os pelourinhos como a única cura para a heresia.

Na noite de domingo, 2 de agosto, um bando de rufiões, chefiados pelo cônego Teles, vestido com as suas vestes litúrgicas, atacaram a casa de Miss Rutherford, súdita britânica, onde aproximadamente quarenta portugueses, na maioria senhoras, se encontravam reunidos em oração. Durante horas a casa foi sitiada, por um número sempre crescente de homens e mulheres rudes, em gritaria infernal. À meia-noite, quando o Cônego se foi embora, foram arrombadas as portas e as janelas e a casa foi invadida por homens com archotes. Soldados e polícia chegaram a tempo de evitar sérias ofensas corporais e prejuízos de maior monta, e os crentes que se tinham mantido em oração, numa das divisões do último andar, foram conduzidos a salvo para suas casas. Não foram poupados a insultos e ao baixo calão das multidões, nem ao muito repetido insulto que lhes era dirigido: "Não há leis para os calvinistas"(78).

No dia 3 de agosto, a pedido de Miss Rutherford, o capitão J. Roddam Tate, R. N. que tinha assistido à parte dos acontecimentos da noite anterior, comunicou o caso ao cônsul inglês. O representante de Sua Majestade manifestou extrema frieza e alegou que o caso pertencia às autoridades civis e, por isso, ele não podia intervir(79). João Fernandes da Gama, que tinha acompanhado os Drs. Miller e MacKeller na visita ao cônsul e ao chefe da polícia do Funchal, em busca de proteção para as vidas e propriedades dos residentes ingleses, descreveu mais tarde o cônsul inglês como um homem sem religião(80). Certamente, ele não simpatizava com o Dr. Kalley e os residentes ingleses que tinham ajudado e encorajado os portugueses a deixarem a religião do Estado.

Desde a chegada do Rev. William H. Hewitson à Madeira, o Dr. Kalley continuou a ajudar, calma e discretamente, os evangélicos portugueses e a encorajar todos os esforços missionários dos seus colegas e compatriotas. O interesse do médico e o seu cuidado profissional tornaram possível a Mr. Hewitson manter razoável saúde, apesar do extenuante trabalho missionário.

Com a ida de Mr. Hewitson para a Grã-Bretanha, o Dr. Kalley tornou-se de novo o alvo principal do cônego Teles de Meneses. O doutor estava marcado para "a aniquilação", que devia ter lugar antes do fim da semana(81). A fraca saúde de sua esposa e as ameaças exaltadas de todos aqueles que passavam à sua porta, obrigaram o Dr. Kalley a pedir proteção ao chefe da Polícia, José de Freitas de Almeida. Um empregado que se dirigia à esquadra da Polícia, com a mensagem, foi apanhado por um grupo de homens que o espancaram brutalmente e destruíram a carta. O Dr. Kalley, então, apelou para o Governador Civil, Valentim de Freitas Leal. No dia 4, à tarde, recebeu uma resposta insultante à sua carta da véspera. O governador acusava-o de ter sido causador de distúrbios graves, "que eram o fruto da árvore que plantou na ilha, qual nunca produziu senão discórdia e confusão"(82).

Nessa mesma tarde, o cônsul inglês, assegurou a Miss Rutherford, por carta, que ela estaria protegida de futuros aborrecimentos, visto o caso já ter sido apresentado ao Governador Civil. Mas a sua quita continuava sitiada dia e noite, importunando-a uma arruaça constante. Toda a gente afirmava agora que o Dr. Kalley não podia escapar-lhes desta vez "a menos que ele fosse o diabo em pessoa"(83).

No domingo, 09 de agosto, pelo meio-dia, terminava a missa a Nossa Senhora do Monte, celebrada na Catedral. Um foguete subiu estalando no ar, sinal que marcava o "Dia de S. Bartolomeu Madeirense", ainda que exageradamente assim chamado. A violência que rebentou em toda a ilha, foi terrível e devastadora. A brutalidade e os archotes foram mobilizados numa cruzada para exterminar a heresia.

A ameaça crescente do antiprotestantismo, durante a semana precedente, só podia ter resultado em desenfreadas violência. Desde o dia 2 de agosto que ameaças e injúrias atrozes eram dirigidas contra os "calvinistas". Afinal, uma série de ataques foram feitos, começando pelas casas e campos cultivados dos protestantes portugueses. "Todas as noites", escreve o capitão J. Roddam Tate, um oficial aposentado da Armada britânica, residente na Madeira, "nós sabíamos de algum novo caso de violência e crueldade, até que por fim eles se sentiram na necessidade de buscar salvação na fuga"(84).

Em Santo Antonio da Serra e Lombo das Faias, as autoridades invadiram as casa dos crentes, altas horas da noite. Soldados aquartelaram-se nas casas donde haviam expulsado os seus locatários hereges, muitos deles mesmo em roupas de dormir. Os soldados e os seu cúmplices saqueavam as casas, matando porcos, cabras e galinhas, banqueteando-se com as provisões dos camponeses que fugiam para lugares escondidos nas montanhas(85). Mulheres e raparigas sofreram indignidades e os homens foram severamente espancados. Vinte e dois homens e raparigas, tidos como dirigentes do movimento, foram apanhados e metidos numa velha masmorra onde as condições eram simplesmente chocantes. À semelhança de Paulo e Silas na prisão de Filipos, eles "cantavam hinos a Deus"(86).

Cá sofremos aflição
Cá, desgostos perto estão,
Mas lá no céu há paz(87).

Oito e nove de agosto. Foram dias de grave perigo e sofrimento para todos aqueles, que de qualquer forma, estivessem associados ao movimento evangélico. Centenas buscaram abrigo ou esconderijo entre os matagais, nas vertentes das montanhas, onde vagabundearam dias e dias, perseguidos pelos seus inexoráveis inimigos. As autoridades civis perderam o controle sobre as quadrilhas de despojadores, muitos deles convencidos de que estavam cooperando numa cruzada santa contra os hereges. Os protestos dos residentes ingleses e de muitos bons portugueses que estavam horrorizados como o bárbaro espetáculo de fanatismo e terror, não foram atendidos.

Na manhã de domingo, 9 de agosto, a senhora Kalley foi conduzida, sob disfarce, a casa do cônsul inglês , que vendo depois a saber-se, na manhã daquele mesmo dia, saiu para a sua casa de campo(88). Durante a semana anterior o Dr. Kalley fora aconselhado pelos seus amigos e pelo cônsul inglês a deixar a ilha, antes que a sua vida corresse perigo maior. Era já quase tarde demais quando ele atendeu aos persistentes conselhos de seus amigos. Disfarçou-se de mulher doente, e foi transportado numa rede, que era a maneira habitual de então transportar os inválidos, para a quinta dos Pinheiros e, ali, antes que nascesse o sol, no dia 9 de agosto, foi posto a bordo do navio britânico "Forth", o qual, providencialmente, tinha aportado na baía do Funchal. Nesse mesmo dia, do convés do navio "Forth" pôde ver uma espessa coluna de fumo e chamas envolvendo a sua casa no distrito de Santa Luzia. Casa mobília, material cirúrgico e provisões, valiosa biblioteca e insubstituíveis manuscritos foram destruídos naquele holocausto(89). Pôde ainda observar outra nuvem de fumo que se levantara de todas as Bíblias e publicações evangélicas que foram impiedosamente destruídas pelo fogo, na Praça da República. O hospital foi saqueado e grandemente danificado; muitas das escolas domésticas foram também incendiadas(90).

Naquela tarde o "Forth" seguiu destino para Trindade nas Índias Ocidentais Inglesas, como estava previsto. Ali o Dr. Kalley e sua esposa mais tarde se reencontraram e juntos seguiram para a Inglaterra.

Acabada a obra de destruição no Funchal, os perseguidores, ainda insatisfeitos, perseguiram o rebanho disperso pelas montanhas, buscando-o por toda a parte "como animais ferozes e esfaimados"(91). Alguns dos crentes eram pastores e estavam habituados a guardar os seus rebanhos de carneiros e cabras nas montanhas. Por isso as conheciam bem. Ali encontraram bons esconderijos nas ravinas e cavernas para os seus irmão fugitivos, a quem forneciam leite e queijo para o seu sustento. Outros sofreram nos seus esconderijos grande fome e incontáveis privações, enquanto as suas casas e seus campos eram assolados.

Não havia segurança, nem lei, para os hereges desprezados. Eram fugitivos numa terra que era a sua própria terra, e perseguidos na usa ilha natal. As duas semanas seguintes à fuga do Dr. Kalley foram de confusão e de grandes apreensões para o povo perseguido e sem pastor.

Havia agora prisões diariamente e julgamentos aos quais nenhum leitor da Bíblia, como eles eram depreciativamente chamados, podia escapar e dos quais também não se podia esperar justiça. Testemunhas falsas eram muitas vezes subornadas; o acusado era obrigado a pagar as despesas do seu próprio julgamento e do tempo em que permanecesse cativo. Eram excomungados. E todos os fiéis católicos romanos proclamavam aos quatro ventos, setenciosamente: "Que ninguém lhes dê lume, água, pão ou qualquer outra coisa que venham a necessitar. E ninguém pague o que lhes deve. Esta ordem foi tão estritamente observada que os que tinham alguma coisa para vender, não encontravam comprador por preço algum. Alguns deixaram com os amigos para lhes guardarem, em confiança, aquilo que tinham; mas a sentença de excomunhão reduziu praticamente à miséria todos os crentes(92).

Pode-se perceber que não somente os bens pessoais do Dr. Kalley mas também toda a sua obra missionária, levada a efeito durante oito anos, na Madeira, fora igualmente reduzida a cinzas. A oposição e o sofrimento sem limites que os crentes tiveram de suportar, pareciam atingir um novo clímax. João Fernandes da Gama, que fora testemunha ocular destas cenas, relata incidentes de tortura cruel, tais como as que foram infligidas a uma mãe e três filhos pequenos, D. Mariazinha de Vasconcelos(93). Ele dá ainda uma descrição minuciosa do assassínio e bárbara mutilação de Antonio Martins, natural de S. Roque.

Os incidentes na Madeira coincidiram com um plano inglês de recrutar trabalhadores para Trindade, Antigua e St. Kitts, nas Antilhas Menores. Barcos ingleses, à procura de trabalhadores, tocavam os portos dos Açores e atracavam no porto do Funchal, Madeira, no mês de agosto(94). p align=justify>A 23 de agosto o "William", de Glasgow, largava da baía do Funchal em direção da Trindade. Levava a bordo mais de duzentos refugiados religiosos, sem bagagem e muitos deles vestidos de roupas oferecidas pela tripulação. Secretamente, durante a noite ou às primeiras horas da madrugada, despediam-se das matas, nas faldas das montanhas, e dirigiam-se às praias mais isoladas, onde eram recebidos em barcos que os conduziam às pontes do navio britânico.

Era verdadeiramente tocante ver as lágrimas de gratidão, ouvir preces de intercessão pelos seus inimigos e escutar hinos de louvor e ação de graças; era comovente ver, à medida que o seu número aumentava, reunindo-se agora em multidões, a procurar entre estranhos a proteção que os seus compatriotas lhes negavam. Velhos e novos, fortes e fracos, raparigas e mulheres com crianças ao peito - todos se precipitavam para o "William", sabendo que ali havia corações batendo com afeto e ternura pelo rebanho sofredor de Cristo(95).

Apesar de tudo foi com lágrimas nos olhos que viram desaparecer no horizonte, a 23 de agosto, a sua ilha natal. Poucos dias volvidos, mais de quinhentos haviam de seguir-lhes o rastro para a Trindade, a bordo do "Lord Seaton". Durante os meses seguintes muitos mais abandonaram a sua ilha natal, em busca de liberdade de culto em terras de além-mar. As autoridades, nessa altura, permitiram a sua emigração, num esforço de limpar da ilha os calvinistas e de restaurar a ordem. Os primeiros emigrantes estabeleceram-se na Trindade, em Antigua, e, St. Kitts, em Demerara e na Jamaica.

O governo britânico pediu e recebeu dos Portugueses uma indenização no valor de sete mil libras pelos prejuízos sofridos pelo Dr. Robert Reid Kalley. Mas os portugueses dispersos no exílio, que também perderam tudo quanto tinham, encontraram apenas compensação no maior grau de liberdade que experimentaram na terra que os recebeu. Não há números certos para apresentar, mas, por estimativa, pode calcular-se o número de refugiados religiosos que deixaram a ilha da Madeira, como resultado das perseguições de 1846, em cerca de dois milhares.

(18) Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, Edimburgo, 1845, p.10.
(19) Dela Dimit, A Story of Madeira, Cincinnati, 1896, p.19.
(20) Eduardo Moreira, The Significance of Portugal; A survey of the Religious Situation, London, 1933, p.16. Até 1930, o índice de analfabetismo nas ilhas adjacentes - Madeira e Açores - era de 77%.
(21) A. Drummond Patterson, Chronicles of a Struggle, Edinburg, 1894, p.7.
(22) Dimitt, op. cit., p. 2.
(23) Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, 1845, p. 11.
(24) Robert Reid Kalley, Notes, Beyroot, 1851, entrada sob a data de 15 de janeiro.
(25) Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, 1845 p.12.
(26) Moreira, Vidas Convergentes, pp. 170, 171. Cit. do Livro 3º da Contadoria, nº 2.213, Arquivo do Ministério do Reino.
(27) Rocha, op. cit., vol. 3 p. 61.
(28) Sarah P. Kalley, O Verdadeiro Christo; E Outros Trechos das Cartas do Dr. Robert Reid Kalley, Edimburgo, 1888, pp.11, etc. Este pequeno volume, publicado postumamente, editado por Mrs. Kalley, sob o título Uma Lembrança, contém também o trabalho de Dr. Kalley, O Verdadeiro Christo, e trechos de sermões, notas e cartas.
(29) Moreira, Vidas Convergentes, p. 158.
(30) Id., p. 159. As primeiras edições destes folhetos e de vários outros forma oferecidas pelo prof. Eduardo Moreira à Biblioteca de Seminário Teológico Presbiteriano, em Carcavelos, Portugal.
(31) João Fernandes Dagama, Perseguições Calvinistas da Madeira, São João do Rio Claro, Brasil, 1896, p. 9. O rev. João Fernandes Dagama assistiu à perseguição dos calvinistas na Madeira. Ele mesmo fugiu com sua família para Trindade e mais tarde emigrou para Springfiel, Illnois. Fez-se ministro mais tarde, da Igreja Presbiteriana do Brasil, onde chegou em outubro de 1870. Júlio Andrade Ferreira em sua História da Igreja Presbiteriana do Brasil faz várias referências elogiosos ao Rev. Dagama.
(32) "Mandei fazer um barquinho,
Das tábuas de pau de aderno,
Para acartar calvinistas
Para as caldeiras do inferno."
(33) Kalley, Uma Exposição dos Factos, Lisboa, 1875.
(34) Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, Edimburgo, 1845, pp. 10-11. Naquela reunião de Inverness, Dr. Kalley falou à Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, e usando notas previamente preparadas, deu informações sobre os incidentes ocorridos na Madeira.
(35) Id., p. 11.
(36) Id., p. 13.
(37) Id., p. 13.
(38) Id., p. 13.
(39) Id., p. 11.
(40) An English Resident - Narrative of Circunstances connected with the Confinement of Dr. Robert Kalley, now a prisoner in the gaol at Madeira, London 1844. Publicado por J. Hatchard & Son.
(41) Ver o apêndice II.
(42) Livro de Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, 2 de fevereiro de 1844.
(43) W. Carus Wilson, The Madeira Persecutions, London, 1853, p. 13. O Rev. W. Wilson usou, como uma de suas fontes, Madeira em 1846, de Roddam Tate. Um esforço infrutífero foi feito para localizar um exemplar de J. Roddam Tate que, por ocasião dos eventos ocorridos em 1846, residia na Madeira.
(44) Id., p. 14.
(45) Padre Antonio Pereira de Figueiredo, A Santa Bíblia; contendo o Velho e Novo Testamento, Londres, 1828. Esta edição foi traduzida para o português da Vulgata Latina.
(46) Wilson, op. cit., p. 14.
(47) O periódico O Angrense, publicado em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, com data de 8 de dezembro de 1842.
(48) Livro 3º da Contadoria, Nº 2.213, arquivo do Ministério do Reino, Portaria de 17 de Novembro de 1842.
(49) Veja apêndice 1º.
(50) Dagama, op. cit., p. 25.
(51) John Baillie, Memoir of the Rev. W.H. Hewitson, London, 1851, p. 132.
(52) Moreira, Vidas Convergente, p. 162.
(53) Wilson, op. cit., p. 17.
(54) Baillie, op. cit., p. 126.
(55) Id., p. 131. Dr. Kalley registrou isto em suas Notas:"encontrei o Rev. Hewitson pela primeira vez em Lisboa. Ele tinha sido, sem meu conhecimento, indicado na Escócia, pouco antes para trabalhar na Madeira. Voltou comigo para a Ilha e iniciou com muito zelo e amor o trabalho para o qual Deus tão graciosa e extraordinariamente o havia aparelhado. Sua presença veio realmente a ser providencial. Que o Senhor da seara envie muitos trabalhadores como este para a Sua seara".
(56) Wilson, op. cit., p. 26.
(57) Carta dirigida ao Rev. John Sym, convocador da Junta Colonial da Igreja Livre da Escócia, datada de Funchal, 27 de Março de 1845.
(58) Baillie, op. cit., p. 26.
(59) Id., pp. 32-33.
(60) Id., p. 36.
(61) Id., p. 45.
(62) Id., pp. 53, etc.
(63) Carta escrita na hospedaria de Mrs. Lawrence, à Rua Nova de S. Francisco de Paula, nº 39, Buenos Aires, Lisboa. A carta foi dirigida a um amigo em Edimburgo, William Dickson, e datada de 7 de Dezembro de 1884.
(64) Carta dirigida ao Rev. John Sym convocador da Junta Colonial da Igreja Livre da Escócia, datada de Funchal, 25 de março de 1845.
(65) Baillie, op. cit., p. 134.
(66) Id., p. 141.
(67) Id., p. 141.
(68) Dagama, op. cit., pp. 38-39.
(69) Purves, op. cit., p. 17.
(70) Relatório anual da Junta Colonial à Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia pelo seu convocador, rev. Andrew Bonar, D.D. em maio de 1850. Atas da Assembléia Geral da Igreja Livre da Escócia, Edimburgo, 1850, p. 34.
(71) Baillie, op. cit., p. 127.
(72) Wilson, op. cit., pp. 18-19.
(73) Id., p. 18.
(74) Carta ao secretário da Junta Colonial, James Balfour, datada de Funchal, 17 de dezembro de 1845.
(75) Wilson, op. Cit., pp. 47-48. A pedido do Bispo de Funchal, a série de artigos com falsas e abusivas acusações contra o Dr. Kalley e os calvinistas, que apareceu no periódico O imparcial, foi colecionado e publicado sob extenso título na Revista Histórica do Proselitismo Anti-Católico, exercido na Ilha da Madeira pelo Dr. Roberto Reid Kalley, médico escocês, desde 1838, até hoje, por um madeirense, 1845. Uma cópia deste livreto se encontra na biblioteca do Seminário Teológico Presbiteriano de Carcavelos, Portugal.
(76) Wilson, op. cit., p. 19.
(77) Id., p. 19.
(78) Dagama, op. cit., p. 53.
(79) Id., pp. 57, etc.
(80) Id., p. 65. Também, Wilson, op. cit., p. 89.
(81) Wilson, op. cit., p. 91.
(82) Dagama, op. cit., p. 90.
(83) Wilson, op. cit., p. 91.
(84) Id., p. 96.
(85) Tucker, op. cit., p. 31.
(86) Atos dos Apóstolos, 16:25.
(87) Moreira, Vidas Convergentes, p. 165.
(88) Wilson, op. cit., pp. 94-95.
(89) Purves, op. cit., p. 18.
(90) Moreira, Vidas Convergentes, pp. 164, etc.
(91) Carta do Rev. W. H. Hewitson ao Rev. James Dodds, Edimburgo, datada de Glsglow, 17 de setembro de 1846.
(92) Dimitt, op. cit., pp. 38-39.
(93) Dagama, op. cit.., pp. 106, etc.
(94) Wilson, op. cit., p. 98.
(95) Moreira, The Significance of Portugal, p. 27.

(Texto extraído do livro O Apóstolo da Madeira de autoria do Rev. Michael P. Testa pag. 28 a 64)

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