Brasil (1855 a 1876)

Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando em nome do Pai, Filho , e do Espírito Santo; ensinado-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mateus 28: 19)

No dia 9 de abril de 1855, Kalley e sua esposa Sarah embarcam na cidade de Southampton, Inglaterra, em rota mensal de vapores de Royal British Mail Steamship sido estabelecida esta rota, que simbolizava um corredor de progresso para brasileiros e ingleses(222). O Brasil iniciava um ciclo de desenvolvimento acelerado, e em 3 de maio de 1855, em mensagem dirigida à Assembléia Nacional, D. Pedro II demonstrava entre seus propósitos aumentar a população brasileira, com a chegada de imigrantes, visando o progresso da nação(223).

O meu governo prossegue com particular solicitude no empenho de promover a colonização da qual tão essencialmente depende o futuro do país. Como que não serão infrutíferos os seus esforços, auxiliados, como sempre o tem sido, por vossas luzes mediante o concurso de todos os brasileiros

O casal Kalley representava estes novos brasileiros, estrangeiros que se dispunham a participar do projeto colonizador do país, atuando em prol de seu desenvolvimento. Na época a sociedade brasileira mudava sua característica estritamente agrária, passando a iniciar o surto da industrialização e urbanização, principalmente nos núcleos portuários, intensificando o comércio e as distinções entre as classes sociais. Até o final da década de sessenta foram abertas sessenta e duas empresas industriais, quatorze bancos, três caixas econômicas, vinte companhias de navegação a vapor, vinte e três companhias de seguro, quatro companhias de colonização, oito de mineração, três de transporte urbano, duas de gás e oito estradas de ferro(224). A partir de 1850 começou a abertura de estabelecimentos bancários privados, e em 1851 abriu-se a Bolsa do Rio de Janeiro(225). A população do Rio de Janeiro chegaria, na década de 1860 a 300.000 habitantes, contando com grande nobreza, e durante o maior período do ano, com representantes políticos provinciais, além dos embaixadores e cônsules estrangeiros(226).

Politicamente, o império brasileiro passava pela sua melhor fase: os dois partidos principais: os saquaremas, do governo, eram conservadores; e os luzias, da oposição, eram progressistas. Ambos viviam um período de aliança, fruto da política do Marquês do Paraná, que adotou idéias dos adversários e deu empregos públicos a alguns luzias, homens de conhecida habilidade e probidade. Consequentemente, havia quase conciliação entre os partidos(227).

A Igreja Católica Romana passava por sua pior fase institucional no Brasil. Apesar de continuar com status de religião oficial, tinha sofrido perdas enormes em suas fileiras. A crise de 1828 a 1830, quando a política galicanista quase conseguira a criação de uma igreja católica brasileira, abalou a religião oficial. Foi proibida a criação de novas ordens e a entrada de ordens estrangeiras que não se subordinassem ao império. Com isto cessou o ingresso de noviços beneditinos e carmelitas. Em 1855 uma lei proibiu abertura de seminários católicos no país(228). A política ultramontanista do Vaticano, durante o século XIX, procurava privilegiar a supremacia papal, e os jesuítas eram seus maiores defensores, exaltando o papado sobre toda a tendência nacionalista. O papado sofreu, sob Napoleão, a perda de seu território eclesiástico, tendo ficado o Papa Pio VII preso de 1809 a 1814. Os territórios eclesiásticos alemãs foram confiscados e divididos pelos estados seculares, reflexo do que ocorrera na França. Esvaziou-se e finalmente desapareceu o sacro Império Romano (1806). Diante deste quadro, os papas Leão XII(1823-1829) e Gregório XVI(1831-1846), com posturas reacionárias, medievais. E fortaleceram a formação das nações católicas de posições antagônicas (partidos clericais e anti-clericais). No pontificado de Pio IX (1846-1878) foi estabelecida uma completa reforma reacionária. Em 1854 foi proclamada a Imaculada Conceição de Maria. O Syllabus Errorm, de 1864, condenou a separação entre a Igreja e o Estado , a escola laica e a tolerância religiosa; rompera-se de vez com o liberalismo(229).

No campo político, as guerras contra a Áustria, contra a França e com o movimento de libertação italiano, fizeram surgir o Reino da Itália, ocupando a maior parte dos antigos estados da Igreja. Estas e outras tensões políticas não permitiram apoiar mais ostensivamente as alas ultramontana nos países católicos, mas propiciaram a expansão dos movimentos anti-clericais no século XIX.

O casal Kalley chegou ao Brasil neste momento histórico em que o cenário era tremendamente favorável; politicamente com a abertura do país aos imigrantes, e religiosamente pela fragilização da igreja oficial. O casal formava uma estranha delegação missionária, um casal britânico independente, sem quaisquer laços com igrejas ou missões. Kalley, um escocês de origem presbiteriana, que fora censurado em sua própria igreja, não sendo reconhecido como pastor e missionário quando de seu ministério na Ilha da Madeira. Sarah, congregacional inglesa de Torquay, e pelos laços de sangue, representante simbólica de uma segunda tentativa de invasão huguenote no Rio de Janeiro(230), quase trezentos anos após Pedro Richier celebrar o primeiro culto ali (10/03/1557). A teoria de Bordieu nos fornece as características do momento ideal para inserção do profeta:(231).

O profeta é o homem das situações de crise quando a ordem estabelecida ameaça romper-se ou quando o futuro inteiro parece incerto. O discurso profético tem maiores chances de surgir nos períodos de crise aberta envolvendo sociedades inteiras, ou então, apenas algumas classes, vale dizer, nos períodos em que as transformações econômicas ou morfológicas determinam, nesta ou naquela parte a sociedade, a dissolução, o enfraquecimento ou a obsolescência das tradições ou dos sitemas simbólicos, que forneciam os princípios da visão de mundo e da orientação da vida.

Kalley, diferente do que ocorrera quando fora para a Ilha da Madeira em 1838, não estava numa viagem ocasional, com uma perspectiva difusa quanto ao seu futuro: ele vinha ao Brasil não por acaso, mas com propósitos definidos: evangelizar os brasileiros e utilizar todos os recursos para fazer conhecida a Palavra de Deus. Na primeira ocasião, em 1838, com 29 anos, sem experiência de evangelista, ele aproveitou a viagem para realizar dois cultos por dia, escandalizando os tripulantes. Agora, na maturidade alcançada pelas experiências acumuladas em seu ministério na Madeira, em Malta, na Palestina e nos EUA, o médico-missionário escocês de 46 anos utilizou sua viagem para estabelecer contatos, pontes que utilizaria em seu estabelecimento no Rio de Janeiro. Rocha apresenta um relação de senadores e deputados que estiveram juntos com o casal Kalley na viagem ao Rio de Janeiro, e com quem provavelmente estabeleceu contato depois: Francisco G. Martins (Visconde de São Lourenço), J.M. Wanderley, Domingos Sousa Leão (Barão de Vila Bela), Francisco Xavier Paes Barreto (Presidente da Paraíba), J.J. F. de Aguiar, F. Augusto de Oliveira, João Lustosa Cunha Paranaguá (marques de Paranaguá) e J. Pinheiro de Vasconcelos.(232) Ainda a bordo, teve oportunidade de atender a um jovem brasileiro que encontrava-se enfermo. Após estabelecer-se na cidade, visitou duas ou três vezes em sua casa, ocasião em que conheceu um dos médicos da Corte Imperial. Desde sua chegada ao Brasil, Kalley procurou estabelecer vínculos que permitissem o exercício de um ministério definitivo e não efêmero como o que realizara na Ilha da Madeira. Aproximou-se com este fim de diversas autoridades e políticos do país, inclusive em sua chegada distribuiu diversos relógios de ouro às pessoas para quem trouxera cartas de apresentação(233).

Após desembarcarem no Rio de Janeiro, Kalley e sua esposa ficaram onze dias no Hotel Pharoux, não adaptando-se ao mesmo, devido o mau cheiro da praia e ao barulho das barcas Ferry. Em 21 de maio mudaram-se para o Hotel dos Estrangeiros, localizado no Largo do Catete, onde ficaram até 7 de junho, quando subiram a Petrópolis, ficando hospedados no Hotel Oriental(234). O clima, a higiene, e a proximidade da nobreza e de imigrantes protestantes alemães fizeram com que os planos de se estabelecerem no Rio de Janeiro fossem deixados de lado. A cidade de Petrópolis possuía em 1855, 937 prédios de propriedade particular, população de 5.239 habitantes, dos quais 2.743 colonos alemães(235).

O Hotel Pharoux ficava inabitável quando o vento proveniente do mar soprava sobre a cidade. As casas não possuíam fossa, sendo os detritos atirados em barris nas ruas. às seis horas da tarde os escravos encarregados da limpeza, chamados tigres, carregavam os barris, lançado-os ao mar. Quando chovia, ao invés de carregar os barris , os mesmos eram despejados nas ruas(236). Se o quadro político e religioso do Brasil apresentava-se encorajador, o mesmo não acontecia com a situação sanitária. Fruto deste descaso, tudo era contagioso propagava-se com extrema rapidez, havendo enorme mortandade ocasionada por febres malignas, como a palustre e amarela, e doenças como a varíola e a peste bubônica. A tísica pulmonar vitimava entre 20 e 30 anos; eram homens portugueses, da idade que era comum vir para o Rio de Janeiro tentar fortuna. A febre amarela era responsável pela terça parte das mortes, sendo predominante na classe operária(237).

Apesar dos riscos inerentes à falta de saneamento básico, principalmente entre imigrantes, esta condição não era somente negativa, pois abria possibilidade de Kalley atuar como médico e farmacêutico, conforme vimos, após quase dois meses com dificuldades de adaptação no quadro precário de higiene da capital do império, o casal Kalley optou pela colônia de Petrópolis. O Império Brasileiro enfrentava uma terrível situação na área da saúde; o coléra que iniciara no nordeste, chegara ao Rio de Janeiro e no final de 1855 flagelava e matava até m Petrópolis, Kalley apresentou-se ali em 17 de novembro e ofereceu seus préstimos ao responsável pelo setor de saúde, Dr. Melo Franco, que aceitou a oferta, fazendo publicar, em 20 de novembro no Correio Mercantil, a notícia:(238)

O Sr. Dr. Robert Reid Kalley, sacerdote protestante inglês, que se acha entre nós em viagem, ofereceu à comissão sanitária do município da Estrela os seus serviços em favor da pobreza.

O fato de engajar pelos pobres era típico de Kalley, mesmo antes de sua conversão. Chama nossa atenção ele apresentar-se como um sacerdote protestante, além de médico, numa clara tentativa de fazer-se conhecer também através de sua fé.

Na busca de uma residência em Petrópolis, Kalley deparou-se com uma propriedade de Alexandre Fry, chamada Gernheim ou Lar muito Amado. Naquela ocasião estava ocupada pelo Sr. Webb, embaixador americano, que deveria desocupá-la em breve (outubro de 1855). A primeira escola bíblica dominical ocorreu ali numa tarde de domingo, dia 19 de agosto de 1855 Gernheim fora gentilmente cedida à Sarah pela família Webb. Aparentemente o início da escola bíblica foi informal, visto que aconteceu dentro de uma casa emprestada. O casal Kalley ainda se encontrava residindo no Hotel Oriente, onde ficaria até 13 de outubro de 1855, data em que mudaria em definitivo para a Gernheim(239). Nesta primeira aula Sarah lecionou a história do profeta Jonas, participaram os filhos da Sra. Webb e da Sra. Carpenter (duas famílias inglesas). Além do estudo bíblico cantaram hinos e oraram: tudo em inglês. A tradição de Sarah em escola bíblica dominical era muito mais forte do que a de Kalley, devido à sua influência ser muito maior na Inglaterra do que na Escócia naquela época. As Igrejas Congregacionais da Inglaterra inclusive possuíam, desde 1832, a Associação de Publicações da Escola Dominical que visava suprir a necessidade de literatura específica(240). Esta influência é explicada pelo fato da escola bíblica dominical ter iniciado na Inglaterra, na cidade de Gloucester no ano de 1780, através do jornalista Robert Raikes, numa região caracterizada pela forte atividade industrial têxtil(241). O advento da Revolução Industrial causara fortes deslocamentos populacionais, gerando riqueza concentrada e enormes bolsões de pobreza(242). A escola criada por Raikes buscava resgatar crianças da marginalidade, dando-lhes melhores condições de vida através do estudo bíblico, noções de higiene e aulas de moral e civismo. O impacto foi tamanho que ultrapassou as barreiras eclesiásticas, sendo utilizados inclusive nos dias de semana, tornando-se a base de futuras escolas públicas. Sarah provinha de famílias de industriais têxteis ingleses, acostumados com o conflito de classes sociais, que viam na escola bíblica dominical uma oportunidade de investir no homem como um todo, preparando-o para a sociedade e para o reino de Deus.

Nós questionamos onde, nesta circunstância, ficariam os pais das crianças? Aparentemente a estratégia evangelística prendia-se a um público infantil, somos inclinados a pensar que a motivação para a implantação da escola bíblica dominical prendia-se a novidade desta atividade, inédita no país, daí a não adesão dos pais das crianças, já comprometidos com suas igrejas protestantes de origem.

Passadas duas ou três semanas, o próprio Kalley começou a dirigir uma classe de adultos, formada por homens negros(243). O fato de haver uma classe somente para homens negros significaria os que trabalhavam com os Webbs? Seriam libertos ou escravos de diferentes procedências? Faltam-nos respostas a estas indagações, entretanto muito cedo em relação à política abolicionista do país; 33 anos antes da abolição, Kalley iniciou um movimento de instrução bíblica aos menos favorecidos da sociedade, aos excluídos, àqueles a respeito de quem se discutia se eram ou não possuidores de alma. Mesmo sem compreendermos claramente as circunstâncias que favoreceram aquele ajuntamento, uma coisa é certa: a oportunidade não foi desprezada. A preocupação de Kalley aparentemente estava voltada em estabelecer atividades em áreas não desenvolvidas, pioneiras, a casa Gernheim, no distrito petropolitano de Schweizerthal, passou a ser a base dos primeiros cultos domésticos e da escola bíblica dominical, com as duas criadas alemãs e um jardineiro português compondo a primeira congregação(244). E esta escola bíblica dominical está intimamente relacionada com as igrejas de origem kalleiana no Brasil, priorizando o conhecimento da Palavra de Deus, a centralidade do discurso(245).

No final de dezembro de 1855, chegou ao Rio de Janeiro William Deatron Pitt, o primeiro reforço de Illinois. Na realidade Pitt era inglês, nascido no Condado de Devonshire, e havia sido aluno de Sarah na escola noturna de Torquay. Era verdadeiramente seu discípulo, tendo-se disposto a ir para Illinois quando os Kalley lá estavam(246). Um traço característico da liderança de Sarah se mostra no relacionamento com seus ex-alunos, mantendo, os mesmos à distância correspondência sobre seus progressos e atividades. Assim se deu com o carpinteiro Pitt, além do ministro congregacional William Cooksley e o capitão de navio James Hamlym. O ensino para Sarah Kalley ultrapassava o tempo e o espaço da aula, sendo antes de tudo envolvimento com a vida do aluno(247).

A base para evangelização já estava formada no final de 1855: a casa Gernheim, onde já funcionava o culto doméstico e a escola bíblica dominical; o atendimento médico às pessoas carentes, principalmente as que eram vítimas do cólera; a rede de influência na sociedade e na corte da época, através de visitas e contatos informais. Entretanto Kalley percebia que era muito pequena a área de influência de tal propaganda. Era necessário inserir-se na sociedade, melhor explorar a zona fronteiriça entre fé e incredulidade, reforços eram necessários.

Kalley mantinha contato com os madeirenses dos EUA, enviando-lhes cartas pastorais; nas quais aproveitava também para testemunhar sobre as condições do Brasil, desafiando-os a virem trabalhar neste país, foi assim, que, no início de 1856 convidou por carta, para associarem-se no projeto de evangelização do Brasil, os madeirenses: Francisco da Gama, Francisco de Souza Jardim e Manuel Fernandes. Como pastor anterior deles, conhecia suas ovelhas e sua estruturas familiares. As famílias já estavam assentadas, mas apesar das dúvidas iniciais, desfizeram-se do que tinham e responderam ao chamado, partindo de Baltimore a 7 de junho, chegando ao Rio de Janeiro em 6 de agosto de 1856(248).

Quando Kalley esteve em Illinois (1853-1854), tivera oportunidade de conhecer os madeirenses da sua geração e os da nova geração (filhos). Estabeleceu uma classe bíblica que se reunia duas vezes por semana, enquanto Sarah iniciou uma classe de música em que se estudava os hinos. O resultado foi um crescimento vertiginoso na Igreja de Springfield, a ponto de terem de ser ordenados presbíteros e diáconos para melhor atender aos membros(249). Provavelmente muitos jovens se destacaram neste período, entretanto Kalley chamou homens experimentados. Francisco de Souza jardim tinha 40 anos incompletos (nascido em 28 de novembro de 1816), Francisco da Gama tinha 44 anos (nascido em 9 de fevereiro de 1812), não encontramos a idade de Manuel Fernandes, talvez fosse próxima dos já citados. A escolha de seus auxiliares não era ao acaso, Kalley pretendia estabelecer pluralidade ministerial e escolhera homens que pudessem fazer frente às dificuldades de um trabalho pioneiro em condições adversas, possivelmente em meio a perseguições.

Francisco da Gama era o mais experimentado dos madeirenses em Illinois. Havia casado com Francisca de Freitas, em 2 de dezembro de 1837. era filho de Antônio Fernandes da Gama, o primeiro crente da Ilha da Madeira, sendo portanto testemunha ocular de todo o ministério naquele local(250). Seu pai fora o primeiro a sediar reuniões nos lares em 1842,no período do início das perseguições aos crentes da Madeira(251). Vira seu pai morrer e ser-lhe negado local para ser enterrado; seus algozes aproveitaram-se da situação, pois era o primeiro madeirense crente a morrer (dezembro de 1844). E nem a mediação de ingleses e escoceses demoveram a posição dos detentores da religião oficial, que somente concederam que, ao invés de lançar o corpo ao mar, fosse enterrado numa encruzilhada, no meio de duas estradas(252). Este cristão, forjado no meio de terrível perseguição, ocupou posição de liderança, substituindo seu pai no período de sua doença e depois de sua morte. Vária vezes foi espancado em razão da fé, não desistindo nem diminuindo seu ritmo evangelístico. Foi preso duas vezes, permanecendo por mais de dois anos nos cativeiro. Mesmo tendo sido declarado inocente, e quando foi liberto, em junho de 1846, em seguida sofreu com a perseguição final e expulsão de sua pátria. Exilado na Ilha de Trindade, viu sua mãe falecer de uma doença tropical própria das áreas pantanosas em que encontravam, nas fazendas de cana-de-açucar(253). A seriedade, o compromisso, a conduta moral de Francisco da Gama eram irrepreensíveis, vindo a se tornar um dos alicerces no edifício da nova igreja nascente no Império Brasileiro.

O segundo madeirense chamado foi Francisco de Souza Jardim, convertido através da evangelização de uma colega de trabalho de nome Rosa. Foi batizado pelo cunhado de Kalley, o Dr. Miller. Casado com Albina de Souza Jardim, falecida em 12/08/1862, Jardim contraiu novas núpcias com Bárbara de Jesus Jardim, sendo este casamento o primeiro celebrado por Kalley sob o decreto 3.069, de 17 de abril de 1863 que regulava os casamentos dos acatólicos(254). No episódio da fuga de Kalley, Jardim teve papel importante, auxiliando sem saber, pois era um carregador de uma rede, que normalmente era usada para o transporte de pessoas enfermas, Kalley se disfarçou em uma anciã enferma, tendo, desta forma transposto toda a área central de Funchal, passando inclusive entre seus inimigos que o procuravam(255). O depoimento de Dagama é extremamente importante, pois tratava-se de um testemunha ocular destes acontecimentos, sendo ele irmão mais novo de Francisco da Gama, tendo concebido, juntamente com o Dr. Miller, o plano de fuga que permitiu a saída de Kalley da Ilha da Madeira. O carregador de rede, que nada tinha a ver com os madeirenses crentes, que desconfiado solicitara para ver o rosto de quem carregava, obrigou Dagama a simular um atendimento à simular um atendimento à anciã enferma, mas, durante o trajeto resmungava que dado ao peso não poderia ser nenhuma senhora. Ele chegou a colocar a rede no chão exclamando que aquilo era um inferno para ele!, mas completou a jornada a muito custo, sob muitas reclamações. O carregador era Francisco de Souza Jardim, o madeirense escolhido a dedo por Kalley para estabelecer sua base missionária no Brasil, Jardim e sua família pertencem à segunda leva de crentes exilados da Madeira, tendo se deslocado diretamente para Illinois em 18544(256). Suas limitações pessoais foram superadas pela dedicação, determinação, seriedade, disposição ao serviço, não se recusando a servir tão somente no Rio de Janeiro, mas deslocando-se também quando foi necessário à Pernambuco. É marcante o testemunho de Kalley a seu respeito quase vinte anos depois (em 03/07/1875)(257);

Minha estima pelo valor deste homem, prova-se pelo fato de que, há quase 20 anos, determinei chamá-lo para ajudar-me no novo trabalho aqui e nunca me arrependi desse passo. Por isso mesmo, tive o prazer de pedir a um amigo que se encarregasse do salário deste trabalhador.

Sobre o terceiro madeirense, Manuel Fernandes, casado com Francisca Fernandes, não encontramos registros anteriores; inclusive Dagama ficou na dúvida se ele pertencia aos refugiados madeirenses(258). Aparentemente Fernandes foi o que menos se adaptou ao tipo de trabalho no Brasil. Nos relatórios de colportagem(259) nota-se pouca habilidade, fato que levou Kalley a lhe comprar uma casa com pequena área de cultivo para subsistência, pois sua profissão era de lavrador. O seu ritmo não desanimava Kalley, conforme podemos constatar em anotação deste período(260):

Mas pouco a pouco os vai vendendo, e esperamos que o Senhor da casa fará uma bela colheita no dia da ceifa.

Fernandes foi o único dos madeirenses chamados por Kalley em 1856, que não permaneceu no Rio de Janeiro definitivamente, retornando a Illinois (1869 ou 1870)(261), não tendo ocupado no período que esteve no Brasil nenhum cargo no oficialato da Igreja Evangélica Fluminense.

A iniciativa da congregação do Rio de Janeiro ficou a cargo de Francisco da Gama, que alugou uma casa e iniciou o culto doméstico. Em seu primeiro encontro com as famílias madeirenses, Kalley celebrou a ceia do Senhor (10 de agosto de 1856). Nesta reunião já estava agregado William Esher, amigo de trabalho de Pitt. A idéia de vida e missão era presente nestes madeirenses; como Kalley haviam experimentado a fé fora dos locais convencionalmente chamados sacros (igrejas. catedrais, santuários); criam na sacralização de todos os ambientes que permeavam, rompendo a dicotomia entre o profano e o sagrado. A casa onde a adoração era efetuada no culto doméstico, não era somente para morar (habitação), era local onde se deveria prestar culto a Deus, este conceito é claro nos apontamentos de Francisco da Gama:(262).

Aluguei casa na Rua Boa Vista para morar e dar culto a Deus como antes costumava. Logo nos dias seguintes veio o Dr. Kalley a nós. para nos consolar e ajudar na obra do Senhor Jesus.

Além do aspecto de utilizar a casa como local de culto, como já vimos anteriormente, outros detalhes são percebidos nestas anotações. Há a tentativa de reprodução do modelo da Ilha da Madeira, como antes costumava, a instalação da religião marginalizada, baseada na casa dos crentes, sem igrejas, sem oficiais, sem confissão de fé. sem ligações institucionais, somente o povo da fé. A posição de Kalley, veio para nos consolar e ajudar, é a do mais experimentado, do pastor que consola, do irmão que ajuda: seu papel social na religião marginalizada não é de sacerdote que mantém os bens da salvação, mas do profeta que encoraja, desperta. ajuda. infunde fé. A territoriedade da religião clandestina possuía seu núcleo nas casas dos crentes, o espaço imediato a ser conquistado era o proveniente do relacionamento social de cada um. Talvez em qualquer outra denominação protestante, o ajuntamento de 10 de agosto de 1856, em que foi celebrada a Ceia do Senhor seria data fundante do início da nova igreja, pois havia importante participação: Francisco da Gama, esposa, três filhos e uma prima; Francisco de Souza Jardim, esposa e três filhos: Manuel Fernandes, esposa e dois filhos: Kalley: William Deatron Pitt e Willian Esher. Entretanto, para Kalley e sua equipe não era este o objetivo, implantar uma comunidade transplantada; a igreja que dispensariam esforços para formar teria que ser brasileira, com nativos.

O pequeno grupo possuía um referencial teórico para o início do trabalho de evangelização do Rio de Janeiro e Petrópolis, o modelo da Madeira. Mesmo sem possuírem manuais de doutrina, catecismos ou confissão de fé, levavam dentro de si a experiência de vida e missão anterior, objetivando a propagação da fé. através da pregação e da distribuição das Escrituras, cumprindo cada um o seu papel como agente multiplicador do conhecimento de Deus (sacerdócio universal dos crentes em Cristo).

A forma de atuação assemelhava-se a uma rede de informações e contatos. Pitt, que trabalhava no Arsenal da Marinha como carpinteiro. apresenta Jardim. que passa a trabalhar como limador, aproveitando as horas de almoço para divulgar o culto doméstico da Rua Boa Vista, Nada do que acontecia estava destituído de intencionalidade, a equipe de Kalley procurava ganhar e utilizar os códigos da cultura para expandir-se. ganhando micro-espaços nos interstÍcíos da sociedade. Francisco da Gama aceitou o desafio da colportagem. distribuição (venda) de Bíblias. Novos Testamentos, livros e folhetos no Rio de Janeiro. Fernandes e sua família instalaram-se numa casa pertencente à chácara do Gernheim. iniciando o trabalho de colportagem em Petrópolis.

A chegada de Pitt e das três famílias madeirenses. desinstalados de suas pátrias Inglaterra e Ilha da Madeira). deslocados dos EUA para o Brasil com um propósito definido, evangelizar o país transformaram-nos em sujeitos dinâmicos. desraigados, com forte sentimento de vida e missão, perfil adequado para agentes de transformação da história.

No final de agosto de 1856 o trabalho de colportagem nas duas cidades estava estabelecido. sendo que em 29 de agosto do mesmo ano Fernandes foi preso por não possuir licença para a venda de livros, sendo solto através de mediação de Kalley e pagamento de fiança As hostilidades não tardaram a surgir: no primeiro mês os três madeirenses sofreram agravos, xingamentos e, como vimos ato prisão, Kalley não descuidava, buscando manter a moral do grupo, encorajando-o com textos bíblicos que apontavam promessas. O estoque de material para a venda esgotou-se rapidamente: em outubro não havia mais o que vender, Kalley aguardava o recebimento do envio de Bíblias e folhetos da Inglaterra, as licenças para a venda da colportagem demoravam a sair, mas a procura aumentava, demonstrando que o projeto havia funcionado(263).

Em 5 de outubro de 1856, Kalley começa a utilizar a propaganda em jornais, começando a publicar a tradução da obra de John Bunyan: o Peregrino, no jornal Correio Mercantil. Foram publicados em 35 capítulos, causando boa impressão junto aos leitores. Este expediente se transformou em importante agente para insuflar idéias evangélicas e liberais na sociedade e na corte(264).

Kalley que na Madeira havia exercido seu ministério através de redes de contato nascidas do sistema de evangelização pessoal e estímulo do sacerdócio universal dos crentes, descobre o poder e alcance da palavra escrita, faz dos jornais sua tribuna utilizando a linguagem de forma criativa, alternando o estilo entre o crítico, o jocoso, o cultural, trabalhando temas e preocupações atuais da sociedade, sem perder seu alvo de minar o poder da religião oficial. Apesar de Kalley ditar as linhas gerais do trabalho de evangelização, nada impedia a criatividade de seus agentes. Francisco da Gama iniciou em sua casa uma escola bíblica, que continuou por cinco meses e meio, somente parando por forte oposição:(265).

Tocante à escola foi a menos sempre, está quase em nada. Eu não pensava estar cercado de pessoas da Madeira. Eles tem dito que VS. saiu fugido de lá, e que nós também saímos fugidos, e que as Escrituras lá foram queimadas, e outras coisas mais. Assim tem metido medo tanto nos que vinham aprender, como nos que vinham ouvir: mas paciência.

A escola foi fechada, permanecendo o culto doméstico noturno diariamente. Francisco da Gama insistiu em manter-se no local, apesar da sugestão de Kalley para que mudasse de endereço.

No final de 1856 a estratégia evangelística de Kalley já estava montada, desdobrando-se nas duas cidades: Petrópolis e Rio de Janeiro(266). A posição de Kalley era fortemente episcopal, supervisionando e dirigindo a estratégia evangelístíca à distância. Seu objetivo era aproximar-se de todos os segmentos da sociedade, através de sua função médica, seus artigos nos jornais, seus contatos políticos e sociais, e agora, com os madeirenses, com a população mais simples através da colportagem. A ambição de Kalley era disputar com a religião oficial o mercado dos bens de salvação, rompendo com seu monopólio, conquistando uma fatia de fiéis, como descreve Bourdieu:(267):

Por sua vez o profeta (ou o heresiarca) e sua seita, pela ambição que tem de satisfazer eles mesmos suas próprias necessidades religiosas sem a mediação ou a intercessão da Igreja, estão em condições de constatar a própria existência da Igreja colocando em questão o monopólio dos instrumentos de salvação, estando obrigados a realizar a acumulação inicial do capital religioso pela conquista (e/ ou pela reconquista incessante) de uma autoridade sujeita às flutuações e as relações conjunturais intermitentes entre a oferta de serviço religioso e a demanda religiosa de uma categoria particular de leigos.

O grau de liberdade dado aos seus cooperadores (Francisco da Gama, Francisco Jardim, Manuel Fernandes, William Pitt e Sarah Kalley ) era limitado somente pela criatividade particular e pelo bom senso, tendo como única regra não despertar atenção dos inimigos. Braga, em seu texto A Personalidade de Kalley e os Congregacionais Brasileiros, descreve que a característica primordial de Kalley no Brasil foi a timidez, fruto da experiência de ver seu trabalho destruído na Madeira:(268).

A experiência da Ilha da Madeira trouxe amargas lições para o Dr. Kalley. A decepção de ver destruídos ou desbaratados os frutos de seu intenso trabalho ali, pela ação fulminante da perseguição institucionalizada, fez com que no Brasil a primeira característica marcante do seu trabalho fosse a timidez.

Cremos que as constantes surpresas naquele local fizeram Kalley desenvolver um estilo de ministério que procurava não chamar a atenção de seus inimigos.

Este comportamento, sempre muito desconfiado com todos os sensores ligados, refreou algumas estratégias evangelísticas. Notamos isto, por exemplo, ao responder a Francisco da Gama, que se propusera visitar os enfermos nos hospitais:(269).

Não me parece que seria prudente ir falar aos doentes nos hospitais, por ora.

Esta excessiva prudência que pode ser confundida com timidez, é marca de sua personalidade. Ao observarmos toda a sua história, somos levados a considerar que se frustraram alguns projetos emergentes, no todo possibilitou sobrevida e trabalho permanente onde lei aplicada; Sarah, ao falar de seu comportamento confirma esta impressão(270):

Em termos de comportamento social e de conversas gerais, ele era quieto e tímido mas um por um nunca demonstrou sentir dificuldades ao falar abertamente de Jesus.

Retornando ao quadro anterior, notamos que a forma do trabalho desenvolvido na casa de Kalley era diferente daquela realizada na casa de Francisco da Gama. O público alvo era distinto, a capacitação dos que ministravam era diversa, as ênfases (músicas, escola bíblica dominical, escola diária) também eram distintas, demonstrando a leveza estrutural. A marca que unificava os dois empreendimentos era a singeleza do culto doméstico. A escola bíblica dominical de Petrópolis iniciou com aulas em português no dia 11 de maio de 1856. exatamente um ano após a chegada do casal Kalley ao Brasil. Como o público de Sarah era diverso (colônia alemã, brasileiros e portugueses, colônia inglesa), a escola bíblica dominical era dividida em três horários: no primeiro período Sarah lecionava em alemão, no segundo período em português, e finalmente, no terceiro período em inglês(271). A classe de Kalley para homens negros permanecia: Rocha cita que nesta época começaram a haver perseguições àqueles alunos que guardavam o domingo(272).

A preocupação de Kalley com pessoas pobres e com os deserdados da sociedade é vista em todas as etapas de seu ministério, sendo assim definidas por Sarah(273):

Na época de sua conversão ele estava ligado à Igreja Estabelecida ( Presbiteriana) da Escócia. Alguns ministros o presbíteros daquela igreja logo o condenaram dizendo que ele estava fazendo coisas que não devia quando, como jovem médico ele reunia os pobres e ignorantes e lhes explicava a Bíblia. Muitas vezes eu via meu marido no degrau da porta de casa com um mendigo qualquer - e os dois conversando sobre o Rei. Quando ele faleceu os office-boys e serventes muitas vezes diziam como eles sentiam falta das palavras que ele lhes dizia ao abrir a porta para recebê-los. Um empregado jovem que não o conhecia disse a um dos empregados idosos que o conhecera bem - Eu tenho certeza que o Sr. Kalley foi um homem excelente...

Em Petrópolis, portanto havia escola bíblica dominical e culto doméstico, no Rio de Janeiro escola diária o culto doméstico.

Os hinos somente eram cantados em Petrópolis, não havendo músicos no Rio de Janeiro.

O serviço de colportagem exercido por Francisco da Gama e Manuel Fernandes visava alcançar todos os bairros das duas cidades com a divulgação da Palavra de Deus.

A cidade do Rio de Janeiro, por ser litorânea, possuía do seu centro a beira-mar três eixos de crescimento (norte, sul, oeste), com aproximadamente seis quilômetros em cada direção, este era o território de Francisco da Gama.(274). Petrópolis, mais compacta, com seus diversos bairros e predominância alemã, era território de Manuel Fernandes. Os demais participantes da comunidade nascente, Francisco de Souza Jardim e William Pitt, utilizavam seus contatos no ambiente profissional e social para evangelizarem, e propagarem a fé. O temperamento alegre e acolhedor de Kalley, sua facilidade evangelística servia de modelo a todos. O testemunho de Sarah a este respeito demonstra sua ação evangelística como capacitação especial (dom):(275).

Durante nossas viagens aquilo que mais me impressionou em meu marido foi sua capacidade incrível na hora de lidar com almas, com pessoas em toda e qualquer circunstância. Muitas vezes eu olhava no meu relógio e após 3 (três) minutos de conversa com outro passageiro ele já estava falando das verdades cristãs.. .e mais, apesar de, às vezes, o passageiro demonstrar uma certa surpresa, eu não me lembro de uma ocasião sequer quando a palavra dele foi rejeitada. Foi a mesma coisa durante sua longa vida. Eu sempre sentia que o dom especial dele era essa capacidade de lidar bem com indivíduos.

Com a utilização da imprensa escrita, Kalley pode perceber seu múltiplo potencial de divulgação, especializando-se a partir de então na tradução de textos, escritos evangelísticos, escritos apologéticos, utilizando diversos pseudônimos (o crítico, o católico­protestante,...), que. irritavam seus oponentes. pois todos reconheciam sua produção literária mesmo sem identificação.

No exercício da medicina Kalley aproveitava todas as oportunidades para evangelizar. Seu método de atuação junto aos seus pacientes é descrito abaixo:(276).

O método do Dr. Kalley tratar com seus pacientes , especialmente quando chamado para visitá-los em suas residências, era original e muito eficaz para conquistar-lhes os corações. Depois de examinar o paciente e antes de formular a receita. costumava observar-lhe, de maneira gentil e persuasiva, que ele próprio não poderia curá­lo, restituir-lhe a saúde, pois é em Deus e por Deus que nos vivemos e temos o nosso ser, tendo ele, por isso, o hábito de orar a Deus em favor daqueles de quem tratava. Ajoelhava-se, então, ao lado do leito do enfermo e fazia oração pedindo que Deus o guiasse na administração dos remédios e curasse o enfermo a seus cuidados. Depois de receitar, tomava o paciente pela mão e aconselhava-o; Você deve orar também a Jesus Cristo, pois ele é o Grande Médico que o pode curar.

.

Para aferir o desenvolvimento das diversas frentes de trabalho Kalley recorria ao método de relatórios periódicos; os colportores tinham que prestar contas semanalmente, a congregação do Rio de Janeiro, pelo menos uma vez por mês recebia sua visita, O controle na ausência de Kalley era efetuado através de cartas, independente de onde estivesse. Braga vê neste comportamento a causa da atrofia no ritmo de desenvolvimento de suas comunidades;(277).

A permanente preocupação do Dr. Kalley em não perder o controle (administrativa. doutrinária e eclesiasticamente), redundou em uma atrofia do trabalho que não cresceu no ritmo adequado à sua potencialidade, suas oportunidades e mesmo facilidades que teve. Tudo precisava ficar do tamanho que o Dr. Kalley pudesse de alguma forma controlar. A sua extensa correspondência especialmente nas ausências do país, (e mesmo de Petrópolis para o Rio de Janeiro) é uma clara demonstração de que até assuntos de menos importância precisavam ser levados à sua consideração.

Paradoxalmente Kalley ausentava-se por longos períodos, chegando mesmo a sair do país, como em 14 de janeiro de 1857, quando foi com Sarah visitar uma pessoa gravemente enferma, retornando da Inglaterra somente em 9 de outubro do mesmo ano, após quase nove meses de ausência.(278). O paradoxo consistia em, por um lado tentar um controle total e por outro dar liberdade, expressando confiança em seus comandados. (^).A tarefa de colportagem era a que mais abria novos contatos. O relatório de Francisco da Gama, nos meses de dezembro de 1856 a junho de 1857 contabilizava a visita a 454 casas e 744 entrevistas.

No mesmo período vendeu 262 Bíblias, 168 Novos Testamentos e 183 folhetos; sendo distribuídos gratuitamente 4 Novos Testamentos e 1076 folhetos.(270). Dentro de sua experiência de fé, o contato com a Bíblia fora fundamental, daí a importância da colportagem e da propaganda através dos jornais. Mesmo sem ter contato com a ação missionária norte-americana, Kalley possuía postulados baseados em sua história de vida que possibilitaram pontes com este tipo de teologia. A fé propaganda na Era Metodista passava pela experiência pessoal e emotiva, atingindo o homem ao ponto de romper com sua cultura, assimilando novo tipo de comportamento ético e moral. A doutrina kalleiana era substancialmente conversionista, individualista, provocando mudança ética e moral em seus novos convertidos, assemelhando-se ao modelo missionário desenvolvido nos movimentos de reavivamento norte-americanos.(280).

As matrizes kalleianas. como já vimos, não eram norte-americanas, mas sim do Puritanismo inglês, influenciado pelo Pietismo alemão. Consideramos que as reuniões privativas organizadas por Philipp Jakob Spener, chamadas collegia pietatis, com seu aspecto de igreja marginal, ou pequenas igrejas dentro da igreja (ecclesiolae in ecclesia), possuem semelhanças notáveis com o culto doméstico kalleiano(281). As propostas de Spener para a melhora da igreja, eram fincadas em seis tópicos principais; uso mais extensivo das Escrituras; exercício do sacerdócio universal; prática coerente com ensinos cristãos; sobriedade nas controvérsias religiosas; reforma das escolas e universidades; e, produção de uma pregação edificante(282). Consideramos que as quatro primeiras propostas faziam parte da estratégia missionária kalleiana. A distinção básica do kalleianismo ao movimento missionário norte-americano, era a falta de ênfase no emocional. Os costumes sociais demonstravam a salvação, as proibições eram próprias do puritanismo inglês (não jogar, não beber, não exercer atividade no domingo, não fumar, não usar vestes extravagantes,...). A busca da perfeição cristã, da santificação, da consagração, da experiência interior profunda, pertencia ao pano de fundo pietista.

O afastamento da instituição igreja e das sociedades missionárias, privilegiando o movimento expontâneo, promovido pelo Espírito Santo, e a destituição do corpo sacerdotal especializado, passando ao leigo a responsabilidade de pregar, aproxima o kalleianismo ao metodismo das fronteiras norte-americanas(283).

O trabalho continuava crescendo: Francisco da Gama, além do culto doméstico diário em sua casa, possuía três outros pontos de pregação. Pitt, junto com seu amigo Esher, mudara-se e fundara um colégio inglês, havendo, na mesma casa um culto em inglês aos domingos. Estes desdobramentos eram voluntários, não pertenciam à estratégia evangelística de Kalley, que entretanto, demonstrava sua aprovação. O que lhe importava era que o evangelho fosse pregado. Dagama utiliza uma metáfora interessante para definir o momento da inserção dos madeirenses no Brasil:(284).

Creio que as três famílias no princípio foram distribuídas do seguinte modo: o irmão Manoel Fernandes foi trabalhar em Petrópolis, na Quinta do Imperador; o irmão Jardim no Arsenal, e Francisco da Gama principiou o seu trabalho espalhando a palavra de Deus e anunciando as boas novas de salvação pelas ruas da rua capital do Brasil. visitando o povo de casa em casa naqueles tempos perigosos de intolerância. Assim foi posto o fermento dentro da farinha para levedar toda a massa.

No dia 1 de setembro de 1857, Kalley celebrou a Ceia do Senhor na Saúde, no culto doméstico realizado na residência de Francisco da Gama. No domingo seguinte, dia 8 de setembro de 1857, no culto doméstico de sua casa em Petrópolis. batizou José Pereira de Souza Louro, português, o primeiro batismo de Kalley realizado no Brasil.(285).

Novamente não percebemos nas narrativas nenhum movimento para organização da igreja, nem deslocamento para uma futura sede, de Petrópolis para o Rio de Janeiro, o batismo era normal, fazia parte do convencimento interior do Espírito Santo.

O esforço evangelístico prosseguia naturalmente, aproveitando­se as oportunidades que iam aparecendo. Em julho de 1858 surgiu um novo surto de febre amarela na cidade do Rio de Janeiro; Pitt iniciou um trabalho de visitação a doentes ingleses e outros, Jardim realizava ministério evangelístico itinerante entre diversas casas de famílias interessadas em ouvir a Palavra de Deus: a religião marginal ganhava novos espaços, espalhando-se nas casas humildes da periferia da corte.

No dia 11 de julho de 1858, Kalley realizou o seu primeiro batismo de um brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade, no culto doméstico realizado na casa de Francisco da Gama, na rua Boa Vista. Nesta data foi estabelecida a primeira Igreja Evangélica(286). O simbólico foi tremendamente forte, ao batizar o primeiro brasileiro, organizava-se a primeira igreja nacional, brasileira, autóctone. A palavra organização talvez não seja a mais indicada, pois a igreja formada não possuía local próprio, reunindo-se numa casa de família, ela não tinha corpo de oficiais eclesiásticos, não dispunha de estatutos e regimento interno, não havia declaração doutrinária, ou confissão de fé, não era vinculada a nenhum grupo eclesiástico cristão e não era reconhecida pelo governo. Mais tarde, em 1878, Kalley escreveu ao Pr. James Fanstone, descrevendo sua forma de ver as igrejas que formou (Fluminense e Pernambucana):(287)

A Igreja Evangélica Pernambucana não pertence a nenhuma denominação estrangeira: não é presbiteriana, porque esta considera válido o batismo romano e pratica o batismo de crianças; aproxima-se mais da denominação batista; mas prefere ter a liberdade de admitir à comunhão qualquer crente fiel e obediente ao senhor, e que o siga em seus santos passos. A Igreja Evangélica Fluminense é, pois. na verdade, uma igreja evangélica brasileira.

No imaginário confessional de Kalley, as comparações eram feitas através do modelo católico romano, presbiteriano e batista. Nunca citou modelo congregacional que praticava o pedobatismo, prática que após seu ministério na Madeira condenava no presbiterianismo. Quanto aos batistas, ele concordava com o batismo de adultos mas considerava inadequada a ceia restrita, embora a tenha praticado no início de seu ministério, optando mais tarde pela liberdade de aceitar crentes de outras confissões à comunhão. É marcante a forma como via nos modelos da Fluminense e Pernambucana, genuínas igrejas evangélicas brasileiras! Kalley e seus comandados nunca se preocuparam com uma identidade confessional, mas concentravam esforços na edificação de uma comunidade nacional, composta de nacionais, auto-sustentada.

O modelo congregacionalista kalleiano nada tem a ver com as igrejas congregacionais ou independentes de sua época, que não possuíam presbíteros, praticavam o pedobatismo e tinham em Westminster e Savoya suas confissões de fé. O modelo congregacionalista em que o homem fosse a base e não a instituição, que a flexibilidade e o bom senso permitisse adequações de conformidade com as necessidades temporais, era o aspirado por Kalley. A divergência com os congregacionais da época, inclusive da igreja de origem de Sarah, levara-o a utilizar a expressão simples de Igreja Evangélica. Desconfiamos que nem Sarah possuísse posições radicais sob o ponto de vista denominacional; em carta enviada à sua tia Lydia Morley, em 2 de maio de 1871, fala a respeito do trabalho que haviam realizado no Brasil, louvando ao Senhor pelos resultados obtidos, prevendo que caso não pudessem continuar passariam a igreja aos presbiterianos:(288).

Almas preciosas tinham sido admitidas na família bem-aventurada do Pai Celeste e ao gozo seguro da morada eterna, além da morte, de modo que ninguém as poderia arrebatar da mão de Jesus; e que. todavia, quanto ao pequeno número dos que vivem aqui na terra, não se admiraria de que fossem afinal incorporados à Igreja Presbiteriana isto, no caso de terem de deixá-los, por falta de saúde.

Com o estabelecimento da Igreja Evangélica, Kalley expressa-mente insere-se na concorrência pelo monopólio da gestão dos bens da salvação até então, desde a chegada dos portugueses no Brasil, estabelecido como monopólio nas mãos da igreja oficial. Sua pregação, assim como dos demais membros da igreja nascente, desafiava a estrutura de representações e práticas do catolicismo romano, tanto na esfera da religiosidade dominante como na esfera da religiosidade dominada, afrontando claramente a classe sacerdotal e as tradições e dogmas da igreja oficial. Através do momento histórico vivido pela igreja no estado, era previsível que serviria aos interesses daqueles que, inseridos no poder (classes dominantes), queriam a diminuição da área de influência do catolicismo romano (galicanistas, liberais, maçons, jansenistas, positivistas). Outra reação esperada era a fúria dos conservadores, principalmente dos ultramontistas, corrente que começava a estruturar-se no Brasil, atraves da influência estrangeira. Desde as primeiras incursões de Kidder, dois padres ultramontanos de origem inglesa (Padres Tibury e James Andrews), foram usados para reagir contra o protestantismo, conseguindo inclusive evitar que a Câmara Legislativa de São Paulo entregasse Bíblias ofertadas por Kidder às escolas públicas daquela província(289).

Kalley e seu grupo previam um incremento das perseguições, pois se na expressão da religiosidade marginal havia repressão, quanto mais agora quando se colocava como opção de fé, buscando romper o monopólio instalado, tornando-se nova empresa de salvação. A classe sacerdotal, que por três séculos e meio detinha o capital da graça institucional ou sacramental, que lhe assegurava o poder por delegação divina, dando-lhe autoridade sobre os leigos, viu-se alvo de uma pregação que a descredenciava, abalando seu edifício religioso. A Igreja Evangélica surgindo não como uma igreja importada, representava na sua brasilidade, uma divisão no seio da religião oficial, dentro de um mesmo mercado de consumidores (fiéis). O horizonte apresentava-se carregado, aguardando-se reações e perseguições por parte dos ultramontanos, a oposição entre os detentores do monopólio da gestão do sagrado e seu profanador.(290).

Após estabelecer a Igreja Evangélica, o sistema de propaganda permaneceu da mesma forma, firmado na colportagem, utilização da mídia, jornais, cultos domésticos e escola bíblica dominical (Petrópolis). Os crentes eram exortados a pregarem a Palavra de Deus, a testemunharem sua fé. Outros espaços de proclamação surgiam espontaneamente (núcleo bíblico no Arsenal da Marinha, cultos em inglês na casa de Pitt). Um novo convertido, José Pereira Louro pregava a uma senhora da corte, que ouvia com atenção e ia preparando-se para professar publicamente sua fé(291). Pedro Nolasco de Andrade, o primeiro brasileiro batizado por Kalley iniciou o trabalho de colportagem, como agente da Sociedade Bíblica de Londres; era mais um propagador do evangelho no Rio de Janeiro(292). A pressão dos vizinhos de Francisco da Gama, para que interrompessem os cultos foram aumentando, até que em setembro foi realizada sua mudança à Rua do Propósito, onde permaneceu até 1864. A Igreja Evangélica, organizada em sua casa, segue a reboque, não havendo separação entre casa e igreja. A igreja continuou no novo local, havendo em 9 de janeiro de 1859 dois batismos: de Felipe Nery e João Manuel Gonçalves dos Santos.

Em 7 de fevereiro de 1859 duas senhoras da corte: Gabriela Augusta Carneiro Leão e sua filha Henriqueta foram batizadas em Petrópolis(293). Gabriela era irmã do Marquês de Paraná e do Barão de Santa Maria, com vasta relação de amizades e parentesco na corte; as duas foram alvo de perseguições, tendo que romper relacionamentos, mudando-se para São Paulo em agosto de 1863. O ato do batismo fora reservado, dentro do ambiente do culto doméstico dos Kalley, entretanto, dada a posição delas na corte despertou a ira da liderança católico romana, que junto com autoridades da época buscaram sufocar a igreja nascente.

A religião oficial percebeu claramente sua ação profética, sua infiltração nos diversos segmentos da sociedade; a conversão das duas senhoras da corte demonstrava a mudança do habitus religioso(294), a rejeição das normas de representação religiosa, tornando-se em perigoso precedente.

O Brasil vivia ainda como se deslocado no tempo. Léonard avalia desta maneira ao comparar o estado da Europa no fim da Idade Média (escândalos papais, reduzido número de sacerdotes, clérigos envoltos com vida secular, diminuição dos ofícios religiosos, empobrecimento da vida sacramental) com a situação brasileira do século XIX(295). O controle das massas era mantido pelo poder dos sacerdotes da religião oficial de administrarem a graça divina através dos sacramentos, a revolução pombalina tinha demolido os muros de contenção jesuíta, que isolavam o Brasil do mundo exterior, entretanto, no consciente coletivo existia uma espécie de redoma transparente na nação, que privilegiava a religião oficial pelo poder sacramental e da absolvição que garantia o paraíso, além do temor da perdição eterna, que os detentores do monopólio dos bens da salvação detinham.

A Igreja Evangélica, com sua doutrina do sacerdócio universal dos crentes, com a pregação da única mediação através de Jesus, implodia todo o sistema da graça institucional católico romana, questionando o poder de seus especialistas (corpo sacerdotal), e do seu sistema de representação religiosa (principalmente a eficácia dos sacramentos e a mediação dos santos), colocando em risco em última instância a própria existência da religião oficial.

Bourdieu cita as formas de reação da igreja oficial quando pressionada pelo profeta e sua seita:(296).

Assim, quando as relações de força são favoráveis à Igreja, a consolidação dessa depende da supressão do profeta (ou da seita) por meio da violência física ou simbólica (excomunhão), a menos que a submissão do profeta (ou do reformador ), ou seja, o reconhecimento da legitimidade do monopólio eclesiástico (e da hierarquia que o garante), permita sua anexação pelo processo de canonização (por exemplo, São Francisco de Assis).

Kalley não se encaixava no perfil de submissão, seu caráter independente próprio de suas matrizes ancestrais não permitia conciliações ou barganhas, a religião oficial era consciente do papel que desempenhara há 13 anos na Ilha da Madeira, restava buscar, como naquele lugar ocasião para uma solução final. Os primeiros sinais de repressão deram-se em Petrópolis. A senhora que José Pereira Louro discipulava foi visitada por um subdelegado que retirou sua Bíblia e outros livros para exame. Posteriormente ela recebeu orientação para não ser iludida pelo inglês(297). Associava-se o poder religioso com o poder político institucional que o legitimava. Ao contrário da Madeira, onde o poder econômico havia desencadeado o processo de perseguição, envolvendo o poder religioso; no Brasil, o poder religioso, sentindo-se atacado pela seita e seu profeta, envolve o poder político e econômico para tentar neutralizá-lo. Em 26 de maio de 1859 a perseguição é iniciada de forma declarada; Kalley é proibido de exercer a medicina, o subdelegado que traz a proibição não leva em conta seus diplomas nem a aprovação que recebera das autoridades imperiais pelos préstimos durante a epidemia de cólera(298). Kalley não reagiu no momento, racionalizou a situação e optou em utilizar a mesma estratégia que tivera na Madeira em 1839, requerendo a revalidação de seu diploma de médico junto á Escola de Medicina do Rio de Janeiro, defendendo sua tese em 29 /08/1859(299).

O Núncio do Vaticano, associando-se ao Presidente da Província de Petrópolis, apresentou representação junto à Legação Britânica, solicitando que Kalley se retirasse de Petrópolis, ou cessasse com a propaganda protestante, alegando que tal ato não era admitido na Constituição Brasileira. No documento alertavam que Kalley havia sido, por este motivo, expulso da Ilha de Trindade e Ilha da Madeira, sendo portanto uma persona non grata. Esta representação foi dirigida a 1º de julho de 1859 ao acusado, através de H. W. Stuart, responsável pela Legação Britânica(300). A população de Petrópolis colocou-se ao lado de Kalley. O extenso abaixo assinado circulado e entregue às autoridades, possuía o seguinte cabeçalho:(301).

Nós, abaixo assinados declaramos que o procedimento do médico inglês. Dr, Kalley, durante a sua residência em Petrópolis, tem sido sempre o mais quieto e benfazejo, e desejamos que esteja no meio de nós para podermos consultá-lo, quando houver mister.

Para refutar a alegação que a tolerância religiosa não era tão plena na Constituição Brasileira a ponto de admitir propaganda de doutrinas contrárias à religião oficial, Kalley fez sumula de 11 questões e a submeteu a três dos maiores juristas do império: Dr. Nabuco, Dr. Urbano S. Pessoa de Mello e Dr. Caetano Alberto Soares(302). Ao buscar um caminho para sua própria defesa, Kalley iniciou um trabalho que trilharia a partir de então de forma contínua utilizando toda rede de conhecimento que possuía: a luta pelos direitos dos acatólicos. Passadas duas semanas, ele recebeu pareceres dos juristas, todos amplamente favoráveis à sua causa. Munido com este material, que juntou com uma carta particular elucidativa de sua verdadeira situação. o médico-missionário escocês respondeu à Legação Britânica. Após exposição de motivos, lançou um ultimato, de expor seu dossiê a todas as nações de onde o Brasil esperava imigrantes (colonos):(303).

Refere-se depois dos quesitos que havia submetido à apreciação dos três doutores jurisperitos e às respostas dadas nos respectivos pareceres. Daí conclui que é evidente que a liberdade por ele exercida estava bem dentro dos limites determinados pelas leis. Por isso estranhava o ato e causava-lhe surpresa que o Sr. Ministro Brasileiro incomodasse a Legação Britânica desta maneira, e, que ele julgasse legítimo oferecer semelhante conselho. Mas, se acaso quisesse que o conselho fosse obedecido, declarava de antemão que estaria no seu direito de publicar os motivos apresentados para a sua exclusão e fazê-los conhecidos em todos os países donde o Brasil esperava colonos. E isto fazia para que os cidadãos livres de outras nações não fossem enganados pela liberdade aparente da Constituição do Império, mas soubessem claramente a interpretação dada pelo governo.

O governo imperial aceitou a documentação, comunicando este fato a Kalley em 3 de agosto de l859(304). Estes pareceres e a resolução governamental foram a jurisprudência necessária para a implantação do protestantismo no Brasil, servindo de referência aos demais grupos que começaram a chegar ao país. Sem dúvida o liberalismo do imperador e das elites foram o que fizeram retroceder o ímpeto da religião oficial, que nesta ocasião sofreu duro revés. Kalley saiu tremendamente fortalecido do episódio, projetando-se nos meios acatólicos e tambem na elite brasileira, e ainda assumindo papel de profeta da fé, pois não representava nenhuma igreja ou sociedade missionária estabelecida, mas sim o direito do cidadão de seguir a religião que quisesse, segundo o que prescrevia a Constituição de 1824. Quanto ao exercício da medicina possuía agora autorização oficial para clinicar no Império do Brasil.

Anteriormente cercara se de amigos influentes, aproximando-se tambem da Corte e do Imperador. Nos momentos de perseguição valeu se destes contatos que possuia, principalmente daqueles que possuíam pensamento conflitante com a religião oficial (liberais, maçons, jansenístas, regalistas e galicanistas). O trabalho realizado por Kalley nos bastidores do Brasil Império possibilitou a aprovação de várias leis de interesse dos acatólicos, assim como de reinterpretações de leis anteriores, principalmente no tocante à liberdade religiosa.

Na ocasião da perseguição em Petrópolis, no segundo semestre de 1859, notamos forças externas agindo pró-Kalley(305).

1) O parecer dos três jurisconsultos aos onze quesitos propostos por Kalley simplesmente inverteram uma interpretação em uso há 35 anos, criando uma jurisprudência que viabilizou a liberdade de culto no país.

2) A visita de D. Pedro II a Kalley em 28 de fevereiro de 1860, pouco tempo após o auge da perseguição não nos parece desvinculada àquela questão, suspeitamos que com sua presença o imperador acenasse simpatia com a causa do médico-missionário escocês. A partir do exemplo do imperador, o casal Kalley começou a receber uma série de visitas de personalidades políticas.

3) A visita do Príncipe Alfred, Duque de Edimburg, em 2 de julho de 1860, orquestrada pelos amigos de Kalley na Legação Britânica, deram um respaldo internacional ao acontecido.

A aprovação do governo brasileiro à liberdade de culto dos acatólicos, não eliminou a ação da religião oficial que não desistiu de perseguí-lo. Ao invés de um ataque frontal a Kalley, optou por tentar desestabilizar os locais onde ocorriam as reuniões evangélicas. A resposta dada por Kalley foi dentro do direito, pois, através de representações junto às autoridades públicas, ele procurava fazer cumprir aquilo que já conquistara. Seus discípulos repetiam a demonstração de pacifismo vista anteriormente na Madeira, julgando-se privilegiados por sofrerem perseguição em nome da fé que professavam. As perseguições eram alimentadas principalmente pelo preconceito, a Igreja Evangélica possuía no seu pastor um britânico, num momento político que com a Questão Christie(306) favorecia o sentimento anti-britânico.

As manifestações contra Kalley levava em conta a amizade deste com o ministro britânico William Dougall Christie, cuja postura diplomática havia provocado o rompimento das relações entre Brasil e Inglaterra em 1863.

Outro preconceito utilizado para intensificar a perseguição religiosa era o sentimento anti-português, os líderes da primeira igreja evangélica eram, na sua maioria, portugueses de origem, o nacionalismo e as marcas da exploração portuguesa ainda eram bem presentes no cenário brasileiro.

A natural expansão dos cultos, chegando a outras localidades, fazia com que o processo de resistência da religião oficial fosse renovado. Esta situação permitia a apresentação de dois perfis de culto quanto à perseguição religiosa, nos locais mais antigos diminuía a resistência, ou tornava-se esparsas; e. nos locais mais novos, o impacto persecutório era maior. No centro destas tensões, Kalley manobrava bem suas relações de amizade, principalmente com políticos como: senador José Martins da Cruz Jobim, senador João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, senador Bernardo de Souza Franco e senador Antônio Luís Dantas de Barros Leite.(307).

O contato com o pioneiro presbiteriano: Ashbel Green Simonto

O Rev. Ashbel Green Simonton, missionário da Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana, chegou ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859. Dezoito dias depois encontrou-se com Kalley, que recebeu bem a idéia de uma missão americana, considerando que receberia melhor proteção de seu ministro e cônsul. O excessivo cuidado de Kalley com a propaganda e sua ênfase em pregar somente em português incomodaram Simonton, que assim escreve em seu diário:(308).

Insiste em que eu me mova em segredo: julga que seria melhor que as sociedades que mandam missionários para países papistas tivessem fundos operacionais secretos. Acha que é tempo de começar a pregação em português e que já há pessoas prontas a sofrer por Cristo. Quanto a serviços religiosos para americanos, inclina-se a desaconselhá-los. Não posso concordar com ele neste ponto. Acredito que além de ser útil a eles, posso também adquirir uma posição e tê-los como aliados. Minha presença e meus objetivos aqui não podem ficar escondidos: portanto minha esperança está na proteção divina e no uso de todos os meios prudentes de defesa, O futuro não pode ser previsto: portanto, busco a infinita sabedoria, e em tudo me submeto à Sua direção.

Simonton começou a contatar com a colônia americana, pregando em várias ocasiões, objetivando lançar raízes de um trabalho pioneiro. Em 14 de dezembro de 1859 recebeu uma carta anônima através de um amigo, que censurava a escolha do campo de trabalho :(309).

Está certo fazer uma coisa errada a pedido de alguém só porque ele se mostrou bondoso para conosco? Se não, deveríamos ponderar o que é certo e o que é errado em relação a alguma coisa, antes de fazê-la. Se um homem abriu pequena clareira em um grande país totalmente sem cultivo (com aquela exceção), seria certo um novo colonizador vir fixar nessa exata clareira sua operação agrícola? Quem é que gostaria de ser tratado como esse hipotético primeiro colonizador? Está certo interferir com qualquer esforço voluntário de espalhar a verdade de Deus em campo tão vasto como o Brasil, ao invés de fazer uma clareira para si mesmo?

Este episódio tem um conteúdo lúdico, pois naquela altura somente se encontravam no Rio de Janeiro promovendo a evangelização Kalley e Simonton, daí o caráter anônimo da carta ser totalmente inócuo. O documento revela também a preocupação de Kalley em reservar uma área em que era pioneiro, uma reserva de mercado tendo em vista seus esforços. Parece que o que mais desagradara Kalley fora a participação de Simonton nos cultos dirigidos por Pitt, não respeitando a territoriedade de seu ministério. A atitude de Kalley é de um típico empresário independente da salvação, que havia lançado suas bases para a conquista de fatia do mercado, produzindo e distribuindo um Deus de salvação de novo tipo, e vê, de uma hora para outra uma concorrência que considera desleal.

O encontro de Kalley e Simonton deu-se três dias após este receber a carta anônima. Podemos imaginar os dois personagens: o primeiro um veterano missionário de 50 anos, o segundo um recém-formado em teologia de 26 anos, em seu primeiro trabalho, apesar das diferenças o mais novo e inexperiente estava repleto de razões, desmontando argumentos de Kalley:(310).

Receber notícias de outros, e com base nelas mostrar a pessoas ressentidas afirmativas que me desmoralizavam; aceitar essas más notícias sem ouvir-me e sem ouvir qualquer pessoa familiarizada com os fatos: condenar-me perante terceiros; escrever-me uma nota anônima que me chega de quarta mão depois de seu conteúdo já ter sido largamente divulgado. Quanto à matéria das acusações, em primeiro lugar não é de sua alçada, em segundo lugar, o que você afirmou é incorreto em quase todos os detalhes e sua repreensão foi muitíssimo injusta. Portanto seu comportamento foi errado em si, com a agravante do modo que escolheu para agir. Estou ofendido como cavalheiro, não simplesmente por sua falta de cortesia, mas porque violou o primeiro princípio do relacionamento honrado; estou ofendido como cristão por sua falta de caridade, ao admitir o mal a meu respeito; estou ofendido como ministro de Cristo, pois tento obedecer à minha consciência, do que Deus é testemunha, e realizar o trabalho do Senhor, embora seja eu fraco; você usou o peso de seu bom nome para desacreditar­me e eliminar minha influência aqui, no campo escolhido de meu trabalho. É dessas coisas que me queixo; não entro no julgamento de seus motivos.

O desdobramento foi típico do comportamento kalleyano; impactado, ele deixou o assunto na mesa, pediu tempo para refletir (racionalizar), separando-se de Simonton por duas horas, após este período retorna, conciliando a situação de forma que agradou o jovem missionário(311);

Sem as desculpas nossa conversa particular teria que terminar naquele momento. Preferiu resolver comigo em particular; pediu tempo antes de responder, e nós nos separamos por umas duas horas. Encontramo-nos no mesmo lugar; confessou estar arrependido, prometeu procurar todos a quem sua nota havia sido mostrada e pedir que considerassem como inexistente; desistia de qualquer intenção de escrever à minha Junta, e me eximia de qualquer culpa no caso. Parecia-lhe que eu deveria ter tido o consentimento expresso do Sr. Pitt antes de pregar, mas dados as circunstâncias a culpa não fora minha. Depois, a seu pedido, demo-nos as mãos e ajoelhamo-nos em oração, outra vez irmãos em Cristo. Foi um lindo triunfo da graça.

Ainda hoje são comuns discussões se realmente ocorreu cisão entre Simonton e Kalley, mas creio que o exposto no diário do missionário americano deixa patente que a ruptura ocorreu e foi superada por ambos. O mesmo diário, em 11 de abril de 1860, quatro meses depois deste incidente, marca o encontro de Simonton, Kalley e Sarah, onde o missionário americano recebeu orientação estratégica, jurídica e uma acolhida fraternal)(312);

Juntos lemos as respostas que ele havia recebido de três dos melhores advogados do Rio sobre questões que havia apresentado a respeito da liberdade religiosa. Claramente eles reconhecem a liberdade de culto, de consciência e tolerância de proselitismo com restrições. As reuniões não devem ser públicas, em lugar aberto a todos, nem proclamadas por convite a todos. O Dr. Kalley acha que ensinar inglês será a melhor tática. Concorda com tudo o que escrevi sobre a localização das missões no Brasil e sem falar de modo positivo inclina-se a acreditar que os cultos em inglês e em português devem ser separados. Ele e a Sra. Kalley foram muito bondosos comigo e convidaram-me a ficar com eles na ultima parte de minha visita.

Ao passar para Simonton o parecer dos três juristas que formara a jurisprudência em prol da liberdade de culto no império. Kalley deu munição ao jovem concorrente, facilitando sua inserção no cenário brasileiro.

A reação de Kalley contra Simonton, no primeiro momento, foi típica de ciúmes, afinal ele tinha, durante quatro anos lançado bases na evangelização do Rio de Janeiro e Petrópolis, inclusive com mapeamento para atingir toda a população com colportores. Aparentemente Kalley não havia vislumbrado Simonton como um missionário enviado por uma Junta de Missões, tratara-o como missionário independente; após refletir suspeitamos que tenha percebido que era o primeiro de uma série que desembarcariam no Brasil, os missionários das juntas americanas. Discutir neste caso reserva de mercado era atitude inglória.

Rocha descreve outro momento de maior tensão na comunicação entre Kalley e os ministros presbiterianos Simonton e Blackford em maio e junho de 1865. As cartas, citadas por Rocha como correspondência infeliz e sem resultados práticos, foram suprimidas pela comissão de redação de Lembranças do Passado, que liberou apenas a carta final, dificultando a interpretação do incidente.

O texto demonstra grande irritação por parte de Kalley, apontando para uma situação irreconciliável (313).

Estas cartas são susceptíveis de ocasionar aumento de suspeitas e de irritação. Queira Deus proibir isso e ajudar-nos para que o sirvamos, em nossos postos distintos e separados, com zelo e sabedoria!

Aparentemente o contato com os presbiterianos, em especial com Blackford, nunca foi dos melhores. Em 23 de julho de 1867, José Manoel da Conceição visitou Kalley portando correspondência de Blackford, na qual este solicitava autorização para incluir seus hinos em uma coleção que pretendia lançar em breve, tendo seu pedido sido recusado. Dois dias depois de recusar o pedido de Blackford, Kalley enviou-lhe outra carta, especificando claramente seu posicionamento:(314).

Pesa-me que na resposta de ontem, não pusesse bem claro que nenhum hino da nossa coleção, publicada por mim, pode ser incorporado a qualquer volume que se intente publicar no Brasil.

Esta restrição foi mantida até a morte de Kalley, sendo liberada a inserção das cópias dos hinos kalleianos em 1896 por Sarah(315). Suspeitamos que a desavença de Kalley com Simonton e Blackford, passava necessariamente pela questão da visibilidade da propaganda, visto que a experiência na Madeira tinha deixado profundas marcas no médico-missionário escocês.

Antes de Kalley vir para o Brasil, quando estava nos EUA, em 23 de novembro de 1853, rejeitara proposta da Sociedade Bíblica Americana para ser seu agente no Brasil, alegando não aprovar seus métodos, principalmente porque a necessidade os obrigava a divulgar notícias nem sempre oportunas(316). Em carta enviada a Francisco da Gama no dia 2 de junho de 1858, criticava as sociedades bíblicas pela divulgação que considerava prejudicial:(317).

Em geral, eu não gosto do serviço das sociedades. Publicam nos jornais o que se faz, e isso é como chamar a atenção dos inimigos das Escrituras Sagradas ao que se está fazendo.

Outra carta que Kalley envia quase cinco anos depois ao mesmo colportor, em 24 de março de 1863, apresenta tom enérgico e irritado ao tratar da ventilação de assuntos internos:

Quando o Sr, Corfield esteve lá no Rio, há meses, parece que houve quem lhe dissesse tudo quanto se está fazendo no Rio de Janeiro; e ele, logo depois de chegar a Buenos Aires, pega na pena e escreve à sua Sociedade, e a Sociedade manda publicar a carta numa gazeta, chamando a V.Sa. um dos empregados da Sociedade! Ora, bem sabeis que fostes empregado por um particular, ao qual eu dei conta dos gastos, etc. Quando este senhor ler, na gazeta da Sociedade, que sois empregado dela, que dirá?... E melhor não falar sobre este ponto...Criança queimada tem medo de fogo.

Nestes três episódios, com intervalo de uma década (1853-1863). percebemos a intolerância de Kalley com a propaganda, talvez, utilizando a última carta citada, a queimadura que sofrera ainda produzia efeitos. A chave da propaganda kalleiana até este momento era a discrição, como tática de guerrilha evangelística urbana procurando manter a invisibilidade para seus opositores, zelando em não abastecer seus inimigos de informações.

A propaganda crescia com a admissão de novos colportores: José Pereira Louro e José Bastos Pereira Rodrigues. No período de 1855 a 1860 foram distribuídas 20.000 exemplares de Bíblias e Novos Testamentos no Brasil, frutos do intenso trabalho de colportagem destes servos de Deus(318). Na falta de leis no país para casamentos entre acatólicos. Kalley inovou e criou um contrato de casamento, utilizado até a aprovação da lei que normatizou a matéria(319). Na criação dos contratos de casamento notamos o duplo papel desempenhado por Kalley segundo a teoria de Bourdieu, como sacerdote da Igreja Evangélica procurava legitimar as uniões que realizava, como profeta, ele denunciava a situação de injustiça que os cidadãos acatólicos eram submetidos em discurso que procurava diminuir o poder da religião oficial.

As perseguições que até então eram particulares, passaram a ser públicas a partir do final de 1860. A experiência dos líderes madeirenses foi colocada à prova, todos reagiram com pacifismo surpreendente; notava-se nos testemunhos que existia orgulho por sofrer pelo evangelho de Cristo. As prisões eram sucessivas, as reuniões dos lares tinham que ser previamente comunicadas à polícia. Todas as casas sofriam perseguições: Saúde, Santa Luzia, São José, respectivamente casas de Francisco da Gama, Francisco de Souza Jardim e Bernardino Guilherme da Silva. A Igreja Evangélica continuava crescendo no meio da perseguição, destacava-se a coragem de Francisco de Souza Jardim. Havia nesta época sete crentes que trabalhavam com ele no Arsenal da Marinha. No dia 5 de agosto de 1861 foram despedidos por suspeita de infecção bíblica e tentativa de sedução dos aprendizes à sua religião(320). A situação ficara tão tensa que Kalley mudou-se temporariamente de Petrópolis para o Rio de Janeiro; sentia necessidade de ficar próximo de seu povo da fé. Rocha narra cenas de apedrejamento, ameaças de incêndio, agressões físicas, agressões morais e depredações.

Diretamente proporcional às perseguições era o aumento dos colportores e evangelistas: Marinho da Silva, Thomaz Gallart, João Severo, Jardim. Aqueles que eram vítimas das perseguições religiosas imediatamente eram contratados como colportores, aumentando a resistência e o moral do grupo. Surgia a identidade comunitária sob uma situação adversa(321). O sofrer pela causa do evangelho provocava experimentações fortes na igreja kalleiana, o sentimento provado dava sentido ao movimento, nada do que ocorria era sem intencionalidade dando lugar ao lúdico, conforme podemos constatar em carta enviada por Pitt a Kalley em 1 de novembro de 1860(322);

Quando formos a casa do escrivão para receber a ordem de pô-los em liberdade disse-nos que pertenciam a uma seita nova, segundo lhe contavam. Sim - respondeu João Carvalho - existe há 1860 anos. Ao ouvi-lo a autoridade encolheu os ombros.

Outro depoimento realizado nesta ocasião foi de Jardim(323): Na polícia disseram que nunca tinham visto gente presa com tanta alegria. Enquanto lá estivemos, não deixamos de dar louvores e estar mui alegres. Espero que isso será um meio para as boas notícias se espalharem nesta cidade.

No centro destas tensões Kalley mandou imprimir sua primeira coleção de Salmos e Hinos, com 50 hinos, impresso no Rio de Janeiro, no período de outubro e novembro de 1861(324). Aparente mente ele considerava a situação passageira, previsível e controlável, não havendo em tempo algum demonstrado disposição de interromper o trabalho. Da mesma forma empregou-se em lutar pelas conquistas dos direitos dos acatólicos, conseguindo em 11 de setembro lo 1861 a aprovação da lei 1144, autorizando e reconhecendo os casamentos de pessoas que não professassem a religião oficial do estado(325). Nas conquistas no campo dos direitos dos acatólicos houve a participação de maçons, liberais, positivistas, jansenistas e galicanista, que mesmo sem ter proximidade com protestantes, auxiliavam por terem o inimigo comum: a religião oficial do império. Outro fenômeno que ocorreu foi a dispersão do trabalho; as perseguições obrigaram as famílias a se deslocarem, levando consigo o culto doméstico e a expansão evangelística. Em 1862 estabeleceu-se o culto doméstico em Niterói (Praia Grande)(326).

A organização da Igreja Evangélica

A organização eclesiástica surgiu naturalmente, de acordo com as necessidades e possibilidades de supri-las. Em 1862 surgiu um livro de atas para registro das sessões, quase quatro anos após o estabelecimento da igreja. Kalley precisaria viajar por questão de saúde, começou a preparar a igreja para a escolha de líderes, os presbíteros. Outra preocupação, dado o seu estado de saúde, era de encontrar um substituto no ministério. Previa aproveitar sua viagem para tentar localizá-lo(327). Até este momento, dezembro de 1861, decorridos dois anos e meio de instalação da Igreja Evangélica, não havia organização interna, não funcionava como grupo, não haviam sessões, todas as decisões eram de responsabilidade de Kalley. Nos casamentos, a triagem do perfil dos noivos, principalmente quando não pertenciam à igreja; além das cuidados diversos, levaram Kalley a buscar a organização eclesiástica, optando por um modelo congregacional ou independente, onde, de forma democrática, discutia-se os diversos assuntos, e através das sessões definia-os, Rocha descreve este momento:(328).

Até afim da ano de 1861, a Igreja Evangélica Fluminense não era uma corporação responsável - não tinha entidade própria (não era pessoa jurídica): o pastor tomava a iniciativa e dava a última palavra em todos os negócios, embora consultasse a igreja, em relação a alguns deles. Provavelmente a questão dos casamentos, que se tornara matéria urgente, para poderem ser admitidos certos crentes que não eram unidos legalmente, bem como a necessidade de eliminar alguns membros que procediam mal - levaram a pastor da igreja a convidar os irmãos a se reunirem, em sessões periódicas. para assumirem uma parte da responsabilidade, nesses negócios e em todos os outras que não fossem da alçada exclusiva do pastor. Daí as sessões mensais dos membros da igreja, para tratar dos interesses espirituais e temporais da comunidade. Estas sessões tiveram início regular em janeiro de 1862, quando foi instituído o livro de atas das sessões da Igreja Evangélica Fluminense.

O primeiro princípio fundamental do sistema congregacionalista ou independente foi estabelecido, com as sessões, suas atas como documentos da comunidade local, conforme define Porto Filho(329):

Cada comunidade local, formada de crentes unidos para adoração e obediência a Deus, no testemunho público e privado do evangelho, constitui-se em uma igreja completa e autônoma, não sujeita em termos de igreja a qualquer outra entidade senão à sua própria assembléia e assim tornada representação e sinal visível e localizado da realidade espiritual da Igreja de Cristo em toda a terra.

Em 1º de agosto de 1862, foram escolhidos quatro presbíteros, que nos impedimentos de Kalley passariam a celebrar os atos pastorais. A estrutura continuava leve, possibilitando inovações: os eleitos eram os mais experimentados, o que garantia a continuidade dos trabalhos, na realidade, eles já eram de fato os líderes, a eleição os colocava na situação de direito. Na semana seguinte, em 8 de agosto de 1862, Kalley e Sarah saíram do Brasil, rumo à Inglaterra. O pequeno espaço entre a eleição de presbíteros e a viagem demonstra que já estavam treinados e no exercício do ministério. Sua viagem foi demorada, retornando somente em 3 de setembro de 1863(330). Os presbíteros começaram imediatamente a exercer os atos pastorais(331), para a nascente igreja esta era uma circunstância natural. No período em que esteve na Europa e Palestina, Kalley enviou cartas pastorais e foi constantemente informado dos acontecimentos por seus presbíteros. Mesmo com este rígido controle, todos os atos pastorais iam sendo desincumbidos pelos líderes da igreja, nada ficou aguardando sua presença física. Os presbíteros(332) agiam sem uma hierarquia entre eles: algumas cartas todos assinavam, seguiam uma escala nas celebrações.

No dia 2 de outubro de 1863, satisfazendo o decreto imperial nº 3.069 de 17 de abril de 1863, que ordenava o registro da eleição dos ministros das religiões toleradas junto à Secretaria do Império, possibilitando através deste proceder, o exercício da celebração de casamentos com plena validade em seus efeitos civis, Kalley foi eleito pastor da Igreja Evangélica Fluminense (nome dado para diferir da Igreja Presbiteriana). Após 24 anos de ordenação (1839), Kalley seria oficialmente pastor de uma igreja reconhecida pelo governo(333). Desta forma Kalley tornava-se sacerdote, porém, sua conduta continuava livre, enfatizando a evangelização, o despertar da fé. Entretanto, o edifício organizacional da Igreja Evangélica continuou a ser construído, espontaneamente, de acordo com as necessidades que apareciam, destituídos de modelos ou padrões pré- estabelecidos. Aparentemente Kalley não discutia muito as opiniões que surgiam sobre novos projetos, mas, dentro de um sistema de administração liberal, optava pelo laissez faire.

A escola dominical do Rio de Janeiro iniciou em 18 de novembro de 1864, quando Kalley e Sarah passaram a residir nesta cidade(334). Notamos que não havia preocupação na padronização de atividades, privilegiando-se os ministérios. Desta forma, a escola bíblica dominical, demorou seis anos para iniciar no Rio de Janeiro.

Em 1864, Pedro Nolasco de Andrade propôs e foi aprovada a criação de uma Sociedade de Beneficência, para socorrer membros necessitados. A estruturação da igreja seguia o caminho das necessidades temporais: suas ramificações em nada possuíam plano ou modelo eclesiástico a priori(335). A criação da Sociedade de Beneficência foi aprovada pela sessão da igreja, com a ressalva de ter seu funcionamento fora da mesma. Reconhecia a obrigação do auxílio de membros necessitados, no entanto entendia que esta sociedade deveria funcionar de forma independente da igreja. Devido a esta situação, após vários meses de discussões nas sessões regulares, estabeleceu-se que deveriam ser eleitos diáconos, o que efetivamente ocorreu em 30 de setembro de 1864, quando foram eleitos João Severo de Carvalho e José Bastos Pereira Rodrigues(336). Mais uma vez o critério utilizado na formação do quadro de oficiais da igreja passava pelo aspecto circunstancial, sem qualquer adequação a um modelo eclesiológico pré-concebido. Kalley comprou uma casa com amplo terreno na Rua das Partilhas, no centro do Rio de Janeiro. Adequou-a ao funcionamento da igreja e construiu uma casa onde residiu até sua partida do Brasil, em 1876. O zelo de Kalley é visto no detalhe de mandar retirar a estátua ornamental para não ser acusado de desobediência à constituição(337):

Na casa, existente em baixo, com a frente para a travessa das Partilhas, foram feitas as modificações necessárias, tendo-se o cuidado de remover uma estátua, que ornava a fachada, e enviá-la às autoridades, para que depois não alegassem que a casa tinha forma exterior de templo.

Consolidando o novo espaço religioso

A intensificação das atividades em Niterói provocou forte reação da religião oficial, as perseguições tornaram-se violentas, provocando a intervenção da polícia e do presidente da província, senador Souza Franco. Na Assembléia Provincial questionava-se sobre as origens de Kalley. Ao ser informado desta situação através de jornais, o médico-missionário escocês, em 25 de novembro de 1864, mandou imprimir uma carta aberta para distribuição entre todos os deputados e demais autoridades provinciais, aproveitando a oportunidade de propaganda e apologia, deste documento extraímos uma parte em que testemunhava sua total independência ministerial(338).

Consta-me que se tem afirmado que sou um dos agentes da Sociedade Bíblica de Londres, que tem por objeto a distribuição das Escrituras Sagradas, em todas as línguas do mundo, a um preço tão baixo, que as põe ao alcance de todos os que sabem ler. Crendo, como eu creio, que o temor de Deus e o conhecimento da sua vontade são o alicerce da honra e da estabilidade de toda a nação - tenho em muito apreço os trabalhos daquela sociedade, porém não tenho relação alguma com ela, não sou nem nunca fui missionário de qualquer indivíduo ou associação de indivíduos de qualquer nação. A minha fortuna particular é tão suficiente para os meus misteres, que eu jamais consentiria em servir qualquer pessoa ou sociedade sob remuneração alguma que me pudessem oferecer

Esta postura de independência de Kalley, além de reforçar a característica totalmente brasileira da Igreja Evangélica, representava o ideal liberal da livre escolha das convicções pessoais, o direito de não ser membro da religião oficial do estado, desta forma, se canalizava a previsível ira ultramontana, mas também ganhava adeptos inesperados de sua causa, independente do aspecto religioso. O clero ultramontista iniciara ofensiva contra o protestantismo através de pregações dos frades capuchinhos, que foram deslocados da zona dos sertões para esta missão específica. Era resposta às atividades evangelísticas que aumentavam no país com o estabelecimento da Igreja Evangélica e da Igreja Presbiteriana.

Outra questão que acirrou os ânimos dos ultramontanos foi a proposta de imigração de 50.000 a 100.000 famílias confederadas ao Brasil. O processo imigratório era tido como certo, o representante americano General William Wallace W. Wood, prometia que viriam ao Brasil pessoas com formação: fazendeiros, engenheiros, mecânicos, professores e profissionais com especialidades diversas(339). O receio ultramontano era evidente, uma imigração maciça poderia desequilibrar a relação de forças pró-protestantismo, as manobras políticas foram intensas até que o plano fracassasse(340).

Durante o período de dezembro de 1864 a março de 1870 as atenções do país se voltaram para a Guerra do Paraguai(341); este episódio fortaleceu a religião oficial pois em tempos de insegurança social existe uma mobilização em torno do religioso.

As baixas brasileiras somaram 33.000, praticamente o dobro do contingente militar ao início da guerra (18.000 homens). O alistamento precisou ser feito às pressas, havendo verdadeiros arrastões nas ruas, em 1865 o contingente passou a 27.000 homens, em 1866 para 67.000 homens, e em 1867 para 71.000 homens. Rocha faz menção deste recrutamento ao citar episódio ocorrido com o presbítero Bernardino Guilherme da Silva, que recorreu ao seu cargo eclesiástico para não ser recrutado pela organização dos batalhões de Voluntários da Pátria, alegando que freqüentemente fazia as vezes do pastor(342).

Em carta enviada a John Morley em 6 de agosto de 1867, Kalley apresenta inquietação quanto à sua permanência no Brasil. Aparentemente sente o aumento da pressão exercida pelos ultramontistas temendo que o governo retroceda no tocante à liberdade religiosa(343):

Quem sabe se não será mais cedo do que pensamos? (estarmos juntos); porque os inimigos políticos papistas avançam com maior decisão, e ultimamente publicou-se um livro que provavelmente excitará a ira romana... O Governo, em conseqüência disso, mostra-se oposto à liberdade religiosa, de uma forma pela qual por muito tempo não se aventurou a fazê-lo. Se a guerra (com o Paraguai) for concluída agora, como o povo geralmente espera, e o Governo tiver o Exército do seu lado, é possível que proceda de tal modo que entendamos ser nosso dever retirarmo-nos do Império. Presentemente, julgamos que aqui é o lugar onde podemos ser de maior utilidade ao crescimento do Evangelho. Sentimos quão grande é o prazer e quão alta a honra de sermos empregados pelo Senhor do céu e da terra para publicarmos as suas verdades a um povo que, até a nossa chegada ao Brasil, estava completamente ignorante das notícias gloriosas, enviadas (por Deus) aos homens mortais.

Rocha não contempla mais este assunto, mas gostaríamos de saber qual o livro referido por Kalley nesta correspondência. Talvez o mesmo fornecesse pistas interessantes do fortalecimento do ultramontismo no Brasil Império. Desconfiamos, principalmente pela proximidade das datas, que tratava-se do livro Causeries sur le protestantisme, de Mons, Louis-Gaston-Adriane de Segur, traduzido sob o título Palestras Familiares Sobre o Protestantismo de Hoje e publicado em capítulos através de vários jornais católicos do país(344). A percepção de Kalley deste momento histórico ad­verso, fez com que mudasse o tom de seu discurso. Através dos seus pronunciamentos em artigos dos jornais, busca legitimar o novo espaço religioso conquistado pela religião protestante, denunciando abertamente as mazelas de seus opositores. A guerra declarada pela imprensa ultramontista buscava readquirir o poder exclusivo do campo religioso, destinava a destruição dos focos territoriais alcançados pelos protestantes. Também estava em gestação a Questão Religiosa, que eclodiria em 1873 com a cisão entre os bispos da religião oficial e o Império(345). Podemos verificar a nova postura de Kalley em alguns trechos de artigos publicados no Jornal do Comércio.

24/04/1867: Porventura pode haver crime maior ou traição mais negra do que os daqueles que, sendo pagos para ensinar ao povo as verdades da religião, adulteram a lei divina e ensinam o povo a guardá-la assim adulterada?(346). 29/06/1867 Cada um tem de tratar de negócio mais importante para si do que todos os negócios da Polícia ou da Presidência de Sergipe. quero dizer, da salvação de tua alma: e se confiar em gente que fale tão afoitamente como aquele vigário e seja tão incompetente (quanto ele) para conduzir à verdade e à justiça - poderá achar-se afinal no caso do cego, guiado por outro cego, por um caminho que nenhum deles conhece... Deus lhe dê arrependimento de suas blasfêmias e lhe perdoe!(347) 13/07/1867 Ele sofreu tanto, em sua saúde, pela prisão injusta, que pouco faltou para se tornar mais um sacrifício humano, exigido pela intolerância daqueles que odeiam o livro de Deus! Não nos admira que os homens recorram a tais meios, quando nos querem fazer crer que devemos dar a uma cruz qualquer o mesmo culto que tributamos ao verdadeiro Deus!(348)

O que ocorre de fato é uma inversão no estilo de seus artigos. Kalley reage no discurso profético, de defensor passa a acusador, causando grande mal estar à religião oficial através de suas denúncías, levantando inclusive situações de províncias menores, que nada tinham a ver com seu ministério. Sua ação era de um profeta da fé, independente, sem restrições denominacionais ou partidárias, que utilizava a tribuna de vasto alcance dos jornais para consolidar as conquistas dos direitos dos acatólicos e tentar diminuir a reação ultramontana. Podemos aquilatar o impacto desta mudança de comportamento de Kalley através da reação de Sarah que assim escreve em seu diário(349):

Vi a comunicação rija do Robert, publicada no jornal: oxalá que seja abençoada por Deus e não produza más conseqüências.

Kalley conhecia a força da palavra escrita, e entendia que, neste momento de crise ao Protestantismo cabia urna linguagem firme, que denuncia-se os sistemas de dominação da religião oficial. Mesmo correndo riscos era hora de tornar-se visível, manobrando o discurso com astúcia, transformando situações de descaso e humilhação em instrumentos de transformação da realidade social. A contribuição de Kalley através de seus artigos na imprensa e muito bem assinalada por Vieira, que analisa os Anais do Senado deste período e descobre similaridades entre alguns discursos e artigos publicados pelo médico-missionário escocês na época. Fica evidente que o mesmo municiava alguns políticos com informações anti-clericais(350).

O poder eclesiástico e a sucessão kalleiana

A expectativa de Kalley para o suprimento dos ministérios passava pela experiência pessoal do homem com Deus sendo os demais aspectos, quer de formação teológica ou denominacional menos importantes. Quando houve a necessidade de arrumar suporte para o trabalho de Lisboa, a pedido da Sra. Roughton, Kalley expressou sua visão de profeta da fé, de alguém destituído de qualquer matiz denominacional ao escrever ao Rev. Stuart, em 2 de novembro de 1868, falando da qualificação necessária para continuar o trabalho, independente da denominação que o assumisse, Kalley disse:(351).

Sinto que Lisboa precisa de um homem cheio de fé e do Espírito Santo, educado, versado na língua portuguesa e hábil em apresentar as palavras divinas, de modo que atraia a atenção dos ouvintes e os leve a humilhar-se sob a poderosa ação do Espírito Iluminador.

Pensando em sua substituição no pastorado, Kalley contatou Richard Holden(352), através de um membro da igreja que era colportor na Bahia, Thomaz Gallart, que na ocasião trabalhava para o presbiteriano Blackford. Holden iniciou como pastor auxiliar em 26 de fevereiro de 1865. Kalley tomou o cuidado de ter uma reunião preparatória com os presbíteros dois dias antes(353). Para Kalley já se inicia aí o processo de transmissão de cargo. Holden, apesar da insegurança que demonstrou em seus planos diversos, tinha muitas características que o credenciam a substitui-lo (britânico, contextualizado com brasileiros, falava o idioma fluentemente, piedoso, bíblico, hábil na apologética).

O modelo eclesiástico já estava formado: pastores, presbíteros, diáconos, escola dominical, escola de música, colportagem, culto doméstico e sessões deliberativas. A escola diária e a sociedade beneficente atuavam fora da estrutura eclesiástica. Os presbíteros encarregavam-se desde o início da Igreja de todas as funções ministeriais, devido a constante ausência e a estratégia de Kalley(354). Tornaram-se mais raras as modificações, a instituição igreja começava a solidificar seus costumes e tradições. A seita transformava-se em igreja, o que era um movimento livre de fé foi gradativamente se solidificando com doutrinas e hierarquias, no dizer de Bourdieu(355):

Toda seita que alcança êxito tende a tornar-se Igreja, depositária e guardiã de uma ortodoxia, identificada com as suas hierarquias e seus dogmas. e por essa razão fadada a suscitar uma nova reforma.

Holden assumiu gradativamente as atividades pastorais; causando apreensão em Kalley o seu discernimento teológico. Seu substituto insistia em adotar posturas teológicas contrárias às suas (dispensacionalismo(356), dupla natureza(357), darbismo(358)). Kalley tentava convencê-lo através de encontros e discussões teológicas, aparentemente sua paciência devia-se à falta de alternativa para a função. Sarah escreveu sobre esta tensão entre Kalley e Holden em 1871(359);

O Sr. Holden tem criado certa dificuldade entre os moços, devido, em parte às doutrinas excêntricas e extraordinárias que resolveu adotar - o que tanto tem entristecido meu marido. Parece mesmo que está inquieto, à espera de uma oportunidade que lhe permita abandonar a sua cooperação conosco. Neste caso, o moço. Sr. Santos, poderia tornar-se, para nós, um verdadeiro Timóteo.

A percepção de Sarah antecipara o desfecho da tensão entre Kalley e Holden, bem como do problema da sucessão. No período de dezembro de 1868 a julho de 1871, o casal Kalley retirou-se do Brasil, seguindo para a Europa, onde Kalley realizou tratamento médico, aproveitando depois para realizarem viagem para outros lugares da Europa e Palestina. Neste período houve o amadurecimento da liderança no Brasil. Quando Kalley se afastou em viagem no ano de 1868, a parte espiritual ficou a cargo de Holden e os demais presbíteros, enquanto a parte material ficou a cargo de um grupo que seria posteriormente chamado de administração do patrimônio. Este dualismo fez com que a Igreja Evangélica Fluminense passasse a ter dois poderes: o espiritual (pastor e presbíteros) e o material (administração do patrimônio). Como o dinheiro cabia ao segundo poder, ele se tornou o de maior capacidade e força dentro da igreja. Aparentemente Kalley não se deu conta desta situação, ou não se importou, pois sempre privilegiava os chamados leigos da igreja.

Suspeitamos que Kalley temia o abuso do poder dos líderes eclesiásticos (pastores e presbíteros), talvez desde a censura que recebera no início de sua conversão em sua própria igreja.

Kalley desde o início de seu ministério na Madeira postava-se contra toda tentativa de clericalização, inclusive para si não admitia o título de reverendo, considerando-o uma usurpação a uma designação que somente Deus merece. Respondendo a um presbiteriano escreveu a este respeito(360):

Quando tiver a oportunidade de me escrever ou de falar a meu respeito, faça-me o favor de não acrescentar ao meu nome o título de reverendo. Tenho tanto direito de usar dele, como qualquer ministro do evangelho: mas creio que (esse título) é próprio de Deus só: e, ainda quando condiga com as outras usurpações dos servos daquele que se intitula Sua Santidade, é (um título) impróprio: e até parece ironia, quando dirigido aos servos daquele que é manso e humilde de coração.

Em outras ocasiões, escrevendo aos presbíteros, chamou-os de empregados da igreja, colocando-se como escravo do Senhor, não concordamos com a interpretação da comissão de redação de Lembranças do Passado, associando o termo empregado ao trabalho de colportagem. pois parece-nos que a preocupação de Kalley era no sentido dos líderes eclesiásticos não perderem a visão de seu papel histórico, tomando decisões que atrapalhassem a causa de Cristo, como ocorrera na Escócia, na Igreja em Kilmarnock e na Madeira, através da perseguição do pastor da Igreja Anglicana. Possuía o espírito prevenido contra este tipo de situação e cuidava para que não se reproduzisse no meio de sua igreja.

Kalley, em carta endereçada a Spurgeon em 14 de setembro de 1871, revelou o desenvolvimento do trabalho no Rio de Janeiro, e a sua participação financeira no mesmo, espaço que seria tomado, em sua ausência, por um grupo denominado administração do patrimônio(361):

Faz dezesseis anos que comecei o meu trabalho no Brasil: a Igreja cresce lentamente; todavia, conto atualmente cerca de 150 membros, sendo quase todos convertidos do romanismo e quase todos pobres. As despesas da Casa de Oração - água, luz. etc. - são pagas por mim. Nunca procuramos auxílio para essas despesas em qualquer outra igreja.

A exposição de forças leigas visando a aquisição do poder eclesiástico surgem nos documentos em 16 de dezembro de 1870. Holden convocou uma sessão extraordinária para que fossem apresentadas queixas ao seu pastorado. Sua ação foi tão imprevista que a princípio ninguém ousou acusá-lo, posteriormente um líder novo, José Luiz Fernandes Braga, industrial de renome na Corte, tomou a palavra e criticou-o por fazer orações muito longas, por pregar em cultos públicos o que deveria ser dito exclusivamente à igreja em suas sessões e, finalmente, ter nas sessões cultos muito longos. Após a defesa de Holden e as manifestações esparsas de alguns irmãos, tomou a palavra outro líder novo, João Manuel Gonçalves dos Santos, que defendeu Holden e conduziu a sessão, em forma de aclamação, a acatar o pastor, a dar voto de apreço ao seu trabalho e a rejeitar os dissidentes(362).

Formaram-se dois grupos de disputa do segundo poder da igreja, um liderado por José Luiz Fernandes Braga, outro por João Manuel Gonçalves dos Santos(363). O único autor que reconheceu esta luta interna na Igreja Evangélica Fluminense foi Braga(364):

Nesse período de ausência do Dr. Kalley, e devido às circunstâncias da interinidade de Richard Holden, formou-se na igreja uma liderança leiga que assumiu de fato a autoridade que o Dr. Kalley exercia, quando presente. Surge nessa época uma forma de governo congregacional, que teve como modelo a Igreja Evangélica Fluminense, em que a vida temporal da igreja é exercida por uma administração do patrimônio - da qual não participa o pastor - e que é o órgão máximo da igreja. Essa dicotomia anti-bíblica de governo eclesiástico foi sendo cristalizada a partir da ausência do Dr. Kalley, que na sua pessoa reunia o sustento espiritual e material da igreja.

Quando Kalley retornou ao Brasil em julho de 1871, Holden partiu para a Inglaterra no mesmo mês, renunciando ao seu cargo de pastor auxiliar da Igreja Evangélica Fluminense em 2 de janeiro de 1872. De fato já estava fora, devido às suas divergências doutrinárias com o pastor titular(365). Os últimos cinco anos do ministério de Kalley no Brasil foram profícuos. Houve um novo ânimo por parte do casal pioneiro, que procurava consolidar a Igreja Evangélica Fluminense, preparando-se para deixá-la em definitivo, e foram anos como de retoques finais a uma escultura trabalhada há quase duas décadas. No tocante ao sucessor no ministério surgiu uma solução doméstica. João Manuel Gonçalves dos Santos sente-se vocacionado. Kalley o envia ao Colégio de Pastores, fundado e dirigido por seu amigo pessoal Charles Haddon Spurgeon em 8 de agosto de 1872. Ele retorna em 9 de agosto de 1875, sendo eleito pastor auxiliar em 31 de dezembro de 1875(366). Seis meses antes do retorno de João Manuel Gonçalves dos Santos, do seminário de Spurgeon, em 7 de dezembro de 1874, Kalley começou a trabalhar na elaboração da confissão de fé da Igreja Evangélica Fluminense. Esta elaboração contou com a participação ativa dos oficiais e da igreja, durando um ano e meio(367). Numa carta destinada aos oficiais da Igreja Evangélica Fluminense em 28 de março de 1876, Kalley explicou suas preocupações(368):

Há um ano, eu desejava retirar-me do Brasil, porque sentia que me faltavam as forças para encarar os trabalhos e a responsabilidade da função que preenchia entre vós. Não me retirei, porque julguei que, se fosse possível, deveria esperar a volta do Sr. João dos Santos. Não me senti, portanto, dispensado pelo amo.

Sua contribuição final à Igreja Evangélica foi a síntese doutrinária conhecida como Breve Exposição das Doutrinas Fundamemtais do Cristianismo, composta de 28 artigos. Até então ele próprio encarnava o pensamento teológico de suas igrejas, analisando caso a caso com auxílio da Bíblia: percebendo que, ao se ausentar, precisaria deixar uma fonte de consulta, breve e fundamental como nomeara, que não engessasse a trajetória da igreja, mas que servisse de trilhos, para que a mesma não perdesse sua rota.

Em todo o seu ministério no Brasil. Kalley demonstrou ser um profeta da fé, de características indenominacionais sem qualquer modelo ou matriz que lhe servisse de projeto prévio na implantação da igreja. Sua eclesiologia, formada à base da bricolagem, totalmente circunstancial, fez com que seus herdeiros tivessem um modelo híbrido, diferenciado das denominações históricas. Esta igreja diferente expressava em sua estrutura eclesiológica e confissão de fé a experiência de vida e missão de seu fundador e de seu povo, desenvolvidas em meio à adversidade causada pelas diversas perseguições sofridas, sendo portanto de natureza ímpar, próprias de uma genuína igreja evangélica brasileira.


(222) KIDDER, D. P. & FLETCHER, J. C. O Brasil e os Brasileiros. p. 205
(223) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 23
(224) PRADO JÚNIOR, C. História econômica do Brasil. Ed. Brasiliense, São Paulo, SP, 1973, p.l92
(225) MAURO, F. O Brasil no Tempo de D. Pedro II. Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1991, p. 45
(226) KIDDER, D. P & FLETCHER, J. C. O Brasil e os Brasileiros. p. 13
(227) KIDDER, D. P & FLETCHER, J. C. O Brasil e os Brasileiros. p. 205
(228) ALVES, M. M. A Igreja e a Política no Brasil. p. 28
(229)WALKER, W. História da Igreja Cristã. p. 694
(230)Sarah pertencia à família Morley, originária da cidade de Morlaix, na França. Seus ancestrais eram huguenotes, e vieram estabelecer-se na Inglaterra movidos por perseguições religiosas. Ver mais informações em: MONTEIRO, E. M. Um Retrato de Mulher (Sarah Poulton KoIley). In: Revistada Vida Cristã, UIECB, 1998, http://users.iron.com.br/~ferrolsara.htm
(231) BOURDIEU, P A Economia das Trocas Simbólicas. p. 73-4
(232) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 29-30
(233) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 116
(234) ROCHA, .J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 30-1
(235) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 25-6
(236) MAURO, F. O Brasil no Tempo de D. Pedro II. p. 15-6
(237) MAURO, F. O Brasil no Tempo de D. Pedro II. p. 17-8
(238) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 34
(239) LUZ, E Esboço Histórico da Escola Dominical. p.39
(240) ANDERS, R. A Escola Dominical (Organização e Administração). Confederação Evangélica do Brasil, Rio de Janeiro, DF, 1949, p. 20
(241) ANDERS, R. A Escola Dominical (Organização e Administração). p. 16-7 (242) HILL, Christopher A Revolução Inglesa de 1640. p. 37
(243) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 33
(244) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 32
(245) Notamos a importância da escola bíblica dominical às igrejas kalleianas, verificando a Constituição da UIECB (União dos Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil), maior grupo remanescente do trabalho de KaIley no Brasil, ao qual está filiado a Igreja Evangélica Fluminense, que em seu art. 80 e parágrafo IV, prescreve como uns dos itens necessário paro um grupo de cristãos organizarem-se em igreja ter uma Escola Dominical e, se possível, outras organizações internas.
(246) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 35
(247)MONTEIRO, E. M. Um Retrato de Mulher (Sarah Poulton KaIley). In: Revista da Vida Cristã, UIECB, 1998,
http://users.iron.com.br/~ferrolsara.htm
(248) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. I, p. 37-9
(249) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 178
(250) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 4, p. 327
(251)DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 14-5
(252) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 30-2
(253) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 120
(254) SILVA JÚNIOR, I. da Notas Históricas sobre a Missão Evangelizadora do Brasil e Portugal. Igreja Evangélica Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, 1960, p. 15-6
(255) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 89
(256) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 180
(257) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. UIECB, Rio de Janeiro, DF, 1957, Vai. 4, p. 137
(258) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 179
(259) Colportagem atividade exercida pelo colportor. O termo colportor deriva da palavra francesa colporter, que significa transportar consigo a mercadoria à venda e era utilizada para livreiros ambulantes (colporteurs), cuja literatura era lida pelo povo em geral. Verificar definição em: CERTEAU, M. de A Cultura no Plural. Papirus Editorial, Campinas, 5P 1995, p. 55
(260) ROCHA, J. G. do. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 45
(261) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 180
(262) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 39
(263) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 42-4
(264) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 47
(265) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 49
(266) CARDOSO, D. N. Congregacionalismo Brasileiro. Conferência proferida no II Encontro da World Evangelical Congregational Fellowship, realizado em Mendes, Rio de Janeiro, 1989, p. 15
(267) BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. p. 59
(268) BRAGA, J. R. F. A Personalidade de Kalley e os Congregacionais Brasileiros. Fuller Theoiogical Seminary (USA), 1986, p. 19
(269) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 42
(270) EVERY CLAYTON, J. E Dr. Kalley- Uma Perspectiva Documental. in: O Cristão, UIECB, Rio de Janeiro, RJ, julho/agosto, 1986, p. 14
(271) LUZ, E Esboço Histórico do Escola Dominical. p. 42
(272) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 36
(273) EVERY CLAYTON, J. E. Dr. Kalley- Uma Perspectiva Documental. in: O Cristão, p. 14
(274) KIDDER, D. P & FLETCHER, J. C. O Brasil e os Brasileiros. p. 13
(275) EVERY CLAYTON, J. E. Dr. Kalley- Uma Perspectiva Documental. ln: O Cristão, p. 14
(276) PORTO FILHO, M. S. A Epopéia da Ilha da Madeira. p. 53
(277) BRAGA, J. R. E A Personalidade de Kalley e os Congregacionais Brasileiros. Fuiler Theolagical Seminary (USA), 1986, p. 21
(278) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 52,59
(279) ROCHA, J. G. da. Lembranças da Passado. Vol. 1, p. 55
(280) MENDONÇA, A. G. & VELASQUES FILHO, P. Introdução ao Protestantismo Brasileiro. Edições Loyola, São Paulo, SP, 199O,p. 32
(281) SPENER, P J. Pio Desideria. Imprensa Metodista & Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, São Bernardo do Campo, SP, 1985, p. 11
(282) SPENER, P J. Pia Desideria. p. 56-80
(283) MENDONÇA, A. G. & VELASQUES FILHO, P. Introdução ao Protestantismo Brasileiro. p. 97
(284) DAGAMA, J. F. Perseguição dos Calvinistas da Madeira. p. 180
(285) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 59
(286) LUZ, F. Esboço Histórico da Escola Dominical. p. 62
(287) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 4, p. 251
(288) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 3, p. 176
(289) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 34-5
(290) BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. p. 43
(291) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 75
(292) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 72
(293) ROCHA, J. G. da. Lembranças da Passado. Vol. 1, p. 82
(294) BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. p. 57
(295) LÉONARD, E.-G. O Protestantismo Brasileiro. p. 28
(296) BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. p. 62
(297) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 83
(298) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 93
(299) LUZ, F. Esboço Histórico da Escola Dominical. p. 70
(300) ROCHA, J. G. do. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 94
(301) LUZ, F. Esboço Histórico da Escola Dominical. p. 70-6
(302) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 95-6
(303) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 99-100
(304) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 100
(305) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa na Brasil. p. 121-3
(306) A chamada Questão Christie envolveu uma longa discussão diplomática entre a Inglaterra e o Brasil, referente ao naufrágio do barca inglesa Prince de Wales, ocorrida no dia 7 ou 8 de Junho de 1861 nas costas do Rio Grande da Sul, redundando em dez mortos e elevados prejuízos materiais. O ministro britânico William Dougoll Christie moveu processo exigindo indenização de 6.525,19 libras esterlinas, alegando ter havido pilhagem da carga e homicídio de tripulantes ingleses em território brasileiro. A questão arrastou-se de 5 de dezembro de 1862 a 2 de março de 1863, quando o Brasil concordou em pagar indenização de 3.200 libras esterlinas. Outro aspecto pleiteado por Christie era o exigência de punição de policiais brasileiros, que haviam prendido oficiais da fragata Fort no Rio de Janeiro na mesma época. Os documentos deste período poderão ser encontradas em: BONAVIDES, P & VIEIRA, R. A. Textos Políticos da História do Brasil. Imprensa Universitária do Ceará: Fortaleza, CE, s/data, p. 463-94
(307) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 126
(308) SIMONTON, A. G. Diário (1852-1867). p. 153
(309) SIMONTON, A. G. Diário (1852-1867). p. 145
(310) SIMONTON, A.G. Diário (1852-1867). p. 154
(311) SIMONTON, A. G. Diário (1852-1867). p. 155
(312) SIMONTON, A. G. Diário (1 852-1867). p. 161
(313) ROCHA, J. G. do Lembranças do Passado. Vol. 4, p. 33-4
(314) ROCHA, J. G. da Lembranças da Passado. Centro Brasileiro de Publicidade Ltda, Rio de Janeiro, DF, 1944, Vol. 2, p. 270-71
(315) ROCHA, J. G. da Lembranças da Passado. Vol. 2, p.271
(316) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 17
(317) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 72
(318) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 106-08
(319) ROCHA, J. G. do Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 131-33
(320) ROCHA, J. G. do Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 155-6
(321) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 167
(322) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 144
(323) ROCHA, J. G. da Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 144
(324) ROCHA, J. G. do Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 167
(325) ROCHA, J. G. do Lembranças da Passado. Vol. 1, p. 171
(326) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 175
(327) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 176
(328) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 115-6
(329) PORTO FILHO, M. S. Congregacionalismo Brasileiro. UIECB, Rio de Janeiro, RJ, 1983, p.l2
(330) ROCHA, J. G. do. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 187,214
(331) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 200
(332) Um deles, William Deatron Pitt, mudou-se nesta ocasião para São Paulo, sediando em sua casa, através do culto doméstico aquela que seria o base do primeira igreja Presbiteriana de São Paulo. A primeira mensagem em português proferida por Blackford foi apresentada em sua casa, no dia 29 de novembro de 1 863. Além de auxiliar o ministério de Blackford, tornou-se o primeiro presbítero eleito pela Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo, em 15 de dezembro de 1867. Foi o terceiro pastor o ser ordenado no ministério presbiteriano, em 16 de agosto de 1869. In: ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 208-09
(333) ROCHA, J. g. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 222-3
(334)ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 271
(335)ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 231
(336) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 241
(337) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 238-9
(338) LUZ, F. Esboço Histórico da Escala Dominical. p. 293-7
(339) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 215-6
(340) No final do processo imigratório confederado, que durou de 1 865 a 1869, aproximadamente 4.000 americanos chegaram ao Brasil. Informações sobre a tensão político-religiosa deste período pode ser encontrada em: VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 209-255
(341) Mais informações sobre a Guerra do Paraguai, inclusive suas motivações político econômicas, podem ser encontradas em: CHIVENATTO, J. J. Genocídio Americano - A Guerra do Paraguai. Ed. Brasiliense, São Paulo, SP, 1979, 188p.
(342) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 1, p. 261
(343) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 4, p. 294
(344) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 220
(345) Questão Religiosa ou dos Bispos, refere-se o uma luta entre a igreja oficial e o império brasileiro, onde a primeira através de D. Vital exigia uma posição da Coroa: ou o governo do Brasil declarava-se acatólico, ou declarava-se católico, e se o governo brasileiro é católico, não só não é chefe superior da religião católica, coma é seu súdito. O perigo do retrocesso nas lutas pelos direitos adquiridos pelos liberais provocou a união de maçons, liberais e protestantes em prol da separação da igreja e estado no Brasil. Maiores informações verificar: VIEIRA, D.G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil.
(346) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 230
(347)ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 234
(348) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 245
(349) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 230
(350) VIEIRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 119- 133
(351) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 3, p.124
(352) Richard Holden foi um dos primeiros missionárias a chegar ao país (1860), na realidade já havia estado no Brasil em 1851 quando era comerciante e aprendeu o português. Exerceu ministério no Pará (Belém) e na Bahia (Salvador), evangelizando, distribuindo Bíblias, relacionando-se com políticos liberais e maçons, participando de polêmica religiosa de certa forma precursora da Questão Religiosa da próxima década. Ver: VIEiRA, D. G. O Protestantismo, A Maçonaria e A Questão Religiosa no Brasil. p. 163-205. Em folheto auto-biográfico contava ter nascido em agosto de 1828 na cidade de Dundee, Escócia. Recebeu formação anglicana na infância, desviando-se dos caminhos de Deus em sua mocidade, uma enfermidade aos 21 anos o reaproximou à fé, formou-se em Ohio, EUA em 1859. Este folheto encontra-se em: ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol, II, p. 45-8
(353) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 19
(354) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 202
(355) BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. p. 60
(356) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 242
(357) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 252
(358) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 313
(359) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 3, p. 173
(360) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 288
(361) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 3, p.22l
(362) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 3, p. 167
(363) Aparentemente estas tensões continuaram a existir durante toda a vida destes dois líderes. Após a partida de Kalley, Santos passou a ocupar o poder espiritual (pastoral) e Braga o poder material (administração do patrimônio). Em 1911 devido o uma questão administrativa referente ao funcionamento do escola diária, houve ruptura entre Santos e Braga, redundando em afastamento e substituição do primeiro. Mais informações sobre este assunto ver: SILVA JÚNIOR, 1. Heróis da Fé Congregacionais. Vol. 2, p. 57-61, 82-6
(364) BRAGA, J. R. F. A Personalidade de Kalley e os Congregacionais Brasileiros. Fuller Theological Seminary (USA), 1986, p. 23
(365) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 2, p. 202
(366) SILVA JÚNIOR, 1. Heróis da Fé Congregacionais. Vol. 1, p.66 (367) ROCHA, J. G. da. Lembranças do Passado. Vol. 4, p. 106
(368) ROCHA, J. g. da. Lembranças da Passado. Vol. 4, p. 161

(Texto extraído do livro Robert Reid Kalley, Médico, Missionário e Profeta de autoria do Rev. Douglas Nassif Cardoso pag. 107 a 154

Volta a página inicial